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segunda-feira, 18 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 07

Gurmençon (FR) – Covarrubias (SP)

18 maio  2015

O jardim do hotel
Hoje, quando acordei, olhei pela janela do quarto e me deparei com uma área interna do hotel onde a moçada faz o desjejum e meu astral começou a melhorar depois das idas e vindas de ontem. Acho que entrei e sai de Espanha e França umas 30 vezes.


A beleza da área me fez esquecer todos os contratempos só a Brigitte é que ainda estava ressabiada e juro que ouvi-a dizer baixinho: “-Hoje levo esse velho maluco para a Espanha ou passo a me chamar Jean Willys”. O fato concreto é que ela tomou o freio nos dentes e passou a comandar as ações. Previdentemente dei uma estudada no mapa na noite anterior, claro que aberto sobre a mesa do restaurante do hotel  e eu de pé, como deve estar um general de alto gabarito, estrategista emérito e piloto de moto coxa-master.  Uma pena o restaurante estar vazio naquele momento histórico. O que seria de Patton, Romel ou mesmo um Eisenhower sem plateia ?  Provavelmente mais um velho desmiolado como o locutor que vos fala....
Seguindo o roteiro adrede traçado (eita nós !), fugindo dos mortais “Peages”, acabamos entrando na Espanha, através do país Basco e antigo Reyno de Navarra.


Parei para abastecer a Brigitte perguntei ao dono do posto pela boina, ele sorriu e respondeu-me: “No dejarnos usarla, pero La tengo em my casa para cualquer eventualidad”. Caramba, essa briga vem lá da idade média....
Bem, na Espanha eu já estava, agora só restava atingir o ponto culminante dos Pirineus e desce-lo na direção de Roncesvalle. O mais interessante é que o viadaço do GPS informava que a velocidade máxima da estrada era 90 Km, para mim ele está  tentando me matar. Curvas em cotovelo umas atrás das outras, manter 90 Km nem o Valentino Rossi perseguido pelo fisco brasileiro consegue.  Ignorando o GPS, chego ao ponto culminante. Claro que a parada é automática. Tem uma pequena capela, faz um friozinho legal mas a vista é simplesmente espetacular. Parei numa boa posição para fotos, comecei a faze-las.




De repente chegam 2 casais falando aquele maravilhoso idioma que a gente tanto brinca mas adora.....”-Hermanos”, pensei. Na mosca. Eram argentinos. A emoção foi grande, abraços, risadas  e aquele papo em “portunhol” que termina sempre em “mendocino” e “caipirinha” ! Foi ótimo, todos fizemos fotos de todos. Um momento da mais pura confraternização e emoção e, como fosse pouco, eram de Cañuelas,  cidade argentina que adoro.



Depois de deixar os “Hermanos” para trás, comecei a descer e cheguei a Roncesvalles. Uma beleza de lugar e o bar, restaurante e hotel é ponto de parada de romeiros, mochileiros e motoqueiros de toda a parte do mundo. O dono, um senhor muito simpático, nos dá todas as informações e me chamava direto pelo  nome (tinha visto no meu crachá) demonstrando uma preocupação espontânea e legítima por todos que chegavam ao restaurante. 


Bem próximo há uma igreja de Santiago do século XIV e, ao lado, um Silo de Carlomagno do século XII, a edificação mais antiga de Roncesvalle.


A região, para variar, é encantadora. Aldeias, povoados, burgos e vilas que já existiam quando de nosso “descobrimento” são preservados. Novas construções, que se façam necessárias, acompanham o conjunto sem tirar a beleza e o charme do local. 




Talvez isso explique porque famosos do mundo inteiro se refugiem nesses lugares simples e históricos e mais do que tudo, seus habitantes tenham  orgulho à altura de seu comprometimento com sua cidade, seja ela do tamanho que for.

Dalí para frente, resolvi dar uma “peajada” ou seja, pegar uma estrada com o tal de “Peage” já que segui os conselhos do meu sobrinho Rodrigo e entupi meus bolsos de moeda.  Peguei o ticket na entrada e depois foi só manter os 120 Km para acompanhar o fluxo. Na hora de pagar a goiaba, seguindo outro expert, o Erikson, procurei as cabines das extremidades mas antes disso vi uma placa com 4 desenhos: um trator, um cavalo, um cara a pé e uma motocicleta e a indicação para pegar uma via paralela ao “Peage”. “Ôba”, pensei “isso é que é país, moto não paga peage”. Bem, vocês já adivinharam, né....tio Hélio fez mais uma asneira. O desenho não era moto era uma bicicleta. Mais um país atrás de mim agora. Céus !  A continuar dessa forma minha folha corrida me colocara, automaticamente, candidato a algum cargo no governo da República Descacetada do Bananão.
A bem da verdade devo dizer que dali prá frente consegui “peajar” numa boa. Nos pedágios da Espanha as maquininhas aceitam dinheiro (notas de 5; 10; 20 ou 50 euros ou moedas), cartão de crédito ou alguém vem lhe ajudar.
A hora avançada, 17 horas,  recomendava  iniciar a etapa de procurar hotel.  Essa é uma estratégia que uso muito, procurar hotéis ao apagar das luzes pois é o momento em que podem surgir ofertas irrecusáveis, principalmente no meio da semana. Afinal é melhor baixar a tarifa do que ficar com um quarto fechado. Verdade que já passei por alguns poucos sufocos mas até mesmo a adrenalina do risco de dormir na rua é emocionante. Sempre penso numa delegacia como última alternativa, por bem ou por mal. Nunca aconteceu. Dessa vez, utilizando o Hotels.com, descobri um simpático hotelzinho chamado “Doña Sancha” em Covasrrubias, a 30 Km de Burgos. Preço normal 60 euros, estava por 35 + 4 com café da manhã. Parti para lá e na estradinha que leva à cidade um céu cenográfico e nuvens incríveis me levaram a fazer estas fotos:


A entrada da cidade já valeu a viagem, a imagem de El Cid “El Campeador”. Só não fiz mais fotos por falta de baterias carregadas na câmera. 


O hotel foi um achado, um dos melhores e mais charmosos em que fiquei nas minhas viagens. Novo, limpíssimo, cheiroso e, acima de tudo, um atendimento difícil de encontrar igual. O café da manhã é um almoço, com aqueles queijos e frios da região, suco natural de laranja, pão caseiro, croissant e o ponto alto: torrada de croissant com geleia de cereja caseira. Hoje não almoço, vou tirar o dia para explorar o vilarejo que, para variar, tem dezenas de atrações históricas. Além disso, tenho que escrever para os filhos, pessoal da Yamaha, carregar baterias de câmeras, baixar fotos, lavar roupas, telefonar para operadoras de 3 dos 4 cartões de crédito que cismam de bloquea-los (aqui prá nós, acho até que eles tem razão. Nem eu mesmo acredito que esteja na Zoropa).

domingo, 17 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 06

Lourdes (FR) – Gurmeçon (FR)

17 maio 2015

O programa de hoje era um prato cheio para motoqueiros: atravessar os Pirineus passando por Col de Toumalet e Col d’Abisque pegando o rumo de Roncesvalle na Espanha.   O dia amanheceu lindo, sem uma nuvem no céu mas fazendo aquele frio que justifica colocar a tal da “segunda pele”. Os romeiros e a maioria dos milicos já tinham ido embora esvaziando os cafés à beira rio. Com isso, aproveitei para saborear com calma meu capuccino e o tal de “Le croissant”, os Pirineus que me aguardassem... e como isso me custou caro.....


Acabei o cafe e segui a direção informada pelo Tomtom Macoute (o GPS),  depois de rodar uns poucos quilômetros você divisa alguns picos ainda cobertos de neve que, ao derreter, alimentam os rios que correm no sopé da cadeia de montanhas e fazem a festa dos pescadores, da turma do “rafting” e de velhos motoqueiros que adoram fotografar esses momentos.





Resolvi acelerar o passo e ia muito bem quando começou a subida, a estrada estreitando, passando por povoados antiquíssimos, em alguns pontos só permitindo a passagem de um carro. Claro que tive de parar. 






Mais à frente algumas cabanas de pedra que pareciam à espera de um artista para retrata-las, nessas horas lamento profundamente minha falta de conhecimento e técnica para capturar a magia do lugar. Que falta faz uma pintora na minha vida !




Depois disso foi um incrível cortejo de carros antigos precedidos por dois motociclistas batedores da polícia. 




E foi assim parando aqui e ali que o GPS me levou de volta ao ponto de partida !  Pedi outro caminho e ele mandou-me entrar numa picada que nem bicicleta passava...enlouqueceu de vez o desgraçado !  Abri o meu mapão e mandei ver, pelo menos cheguei a uma estação de Sky, morto de fome e fiz a melhor refeição até agora: uma bisnaga, com um queijo com cheiro de xulé (um tal de fromage ou coisa que o valha)  com uma fatia de uma espécie de presunto metido a macho e uma chavena de chá de hortelã. Muito bom, se bem que esse negócio de chavena parece meio boiola mas que é elegante lá isso é. 

Melhor ainda quando o dono do café me avisou que o Cal d’Aubisque estava fechado mas os GPS não sabiam disso.  Peguei a estrada que ele me indicou mas isso tirou-me totalmente do planejamento. Cansado e desorientado resolvi procurar um hotel para um banho bem quente e me aboletar na cama que o frio está brabo agora à noite. Foi só o tempo de traçar estas benditas linhas para não deixar acumular serviço.

Amanhã posto as fotos......

sexta-feira, 15 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 05

Bordeaux (FR) – Lourdes (FR)

15 maio 2015

Hoje, o dia amanheceu sem chuva, com cerração e bastante frio. A jaqueta que comprei numa liquidação em Paris está quebrando o galho numa boa. Até agora, além de bloquear o vento, ela se mantém impermeável como me jurou a vendedora.  O desjejum no hotel ficava em 8 euros, com essa grana eu lancho 3 dias na Padaria Rosa de Saron, em Cabo Frio, e ainda sou atendido por atendentes risonhas e educadas. Com isso, deixei para tomar café na estrada, programei o Tomtom (isso lá é nome que se dê a alguém !) para evitar pedágios e priorizar estradas secundárias. Ontem passei por um sufoco na chegada na hora de pagar o pedágio. O lance é que tem um monte de cabines com um monte de logos e palavras em francês em cada um deles. Me benzi e entrei no primeiro que vi, após colocar o ticket na máquina (recebido quando entrei na estrada),  uma louca falou o preço em francês e, graças ao bom Deus, apareceu no visor simultaneamente: 16 euros. O problema começou nesse momento, não existe ninguém na cabine, você tem que pagar com cartão. Todos meus 6 cartões foram recusados e a louca falando um monte de coisas sem eu entender xongas. Até que uma alma caridosa, uma senhora da concessionária do tal de “Peage”, veio me ajudar. Tentamos várias vezes até que o cartão de uma conta que tenho nos USA (declarada no IRPF, claro) funcionou e pediu a senha, após teclar a dita cuja o pagamento foi aceito, peguei o recibo e me mandei. Chegando no hotel, abri minha caixa de entrada e tinha um e-mail do banco avisando que tinha bloqueado meu cartão por tentativa de fraude, além de cancelar o pagamento. Tentei entrar no site e também esta bloqueado. Sei lá o bicho que vai dar. Por via das dúvidas ´passei a andar só em estrada sem “Peage”.
E foi assim que entrei numa região de vinícolas. São pequenas aldeias, com suas construções seculares de no máximo 2 pavimentos onde sobressai a torre da igreja que, quase sempre, identifica a praça principal. Todas tem seu charme, não parar para um café ao ar livre ou para fazer fotos que eternizarão momentos tão incríveis é um sacrilégio. 













Assim, um deslocamento de 3 a 4 horas acaba se transformando numa senhora viagem de 7 a 8 horas.  Mas compensou e muito, nessas cidades descobri um marco do “Caminho de Santiago”,  tracei um almoço  com direito a uma garrafa de vinho da casa por 13 euros.  Tomei uma aula sobre a igreja do século XIII que estava fotografando, além das fotos que consegui fazer para vocês.

A chegada a Lourdes, onde tinha feito uma reserva ontem à noite, foi um espanto. A cidade está tomada por milicos de todas as nacionalidades,  o trânsito é um caos só. Vielas, onde não pode passar um veículo, passam dois.... A sinalização foi toda modificada e o idiota do GPS não me servia para mais nada. Desliguei-o antes de atira-lo no rio. Só muito depois vim saber que eles estavam comemorando, naquele dia, o início do jubileu pelos 500 anos da aparição da Virgem Maria e, em paralelo, estava acontecendo a "Peregrinação dos militares". Minha sorte é que tinha reservado, e pago, antecipadamente o hotel através do site "Hotels.com"......bem, pelo menos era o que eu pensava.













A rua foi descoberta meio ao acaso e a numeração ficava na contra-mão. Dar uma volta nem pensar, parei a moto em frente a uma loja (meio na calçada) e corri até o hotel (muito do xulé), ainda por cima fui atendido por um marroquino grosso que só repetia “no reserve, no reserve” enquanto a mulher dele cozinhava na sala ao lado enchendo o ambiente de um odor tenebroso. Fiquei louco para sair dali o mais rápido possível, depois iria me entender com o site. Pedi para ele escrever no cartão de visita que não tinha vagas e, colocando meu meu melhor sorriso no rosto, apertei a mão dele e caprichei no sotaque “- Que te vás a mierda maricón !”.  O fato é que comecei a me preocupar, o frio estava terrível, a cidade lotada e eu na rua.  Resolvi pegar a estrada novamente para ver no que ia dar. Andei uns 500 metros  saindo do sufoco e vejo um hotel bem razoável.  A recepcionista era portuguesa, simpática e me conseguiu um quarto com garagem coberta para a Brigitte por 45 euros...... 
A herança dos garotos vai segurar mais essa. Amanhã tem mais moçada. Beijos e abraços a todas e todos.