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segunda-feira, 1 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 15

Miranda do Douro – Riaño

1 junho 2015

Hoje comecei a segunda parte do roteiro traçado pelo Jorge Meirelles. O objetivo é Andorra porém passando por um roteiro sugerido por ele que conhece bem a área. Muitas vezes amigos sugerem cidades, locais especiais ou roteiros de dar água na boca e não entendem, como nós motoqueiros, trocamos o charme, o conforto e a segurança dos grandes circuitos por estradas sinuosas, na maioria das vezes em montanhas, com raros postos de combustível,  passando por vilarejos quase desconhecidos para, ao final, sujos,  cansados e com os olhos brilhando prometer repetir o circuito recém terminado. Só quem é do ramo entende e por isso digo que foi uma sorte encontrar o apoio do pessoal do Motoclube do Porto e, em especial, o do paciente e fraternal  Jorge Meirelles. Assim como esta viagem, ficará também gravada entre minhas melhores lembranças a irmandade que encontrei entre os “motards” portugueses.  Os gajos carregam n’alma o mesmo espírito aventureiro que fizeram este país, contra todos os fatos, tornar-se uma das maiores potencias marítimas na época das grandes navegações.  
Isto posto, voltemos à perna entre Miranda do Douro e Riaños. A primeira fase, aquela em território português, me impressionou pela perfeição do conjunto: estradas para quem gosta de pilotar, paisagens de tirar o fôlego, vilas e cidades onde se respira história e uma gente que nos recebe com a alegria de reencontrar um irmão d’além mar. Depois de tudo isso imaginei que a segunda parte, já agora em território espanhol, muito dificilmente estaria à altura da primeira, afinal, e como fosse pouco,  eles não tem o Douro, pensei. Mais uma vez precipitei-me, já na entrada da Espanha começa uma região de barragens cujos lagos refletem ruínas deixadas por antigos habitantes. E foram tantos os que se sucederam ao longo dos milênios que tornou-se fácil identifica-los pela sua influencia nas relíquias históricas deixadas pelo caminho: romanos, mouros, visigodos, saxões, bretões, gauleses, etc.
Como sempre, muitas paradas para fotos ou, simplesmente, para entrar e fazer parte de um cenário, mesmo que por poucos minutos,  afinal é o que ainda fazemos no grande espetáculo chamado vida.
Com tudo isso, o tempo de viagem foi aumentando e resolvi acelerar o passo, a melhor saída para faze-lo era buscar uma autovia e “enroscar o cabo” mantendo 120 Km e de vez um quando um “outlaw” para acompanhar os mais apressados. Nesse momento o Tomtom Macoute entrou em parafuso e me informava que não havia estrada sob as rodas da Brigitte. Enlouqueceu totalmente, só o mantinha ligado para controlar a velocidade já que montei todo o roteiro baseado no Atlas de Carreteras Michelin. A estrada que ele jurava de pés juntos não existir é a A6, duas pistas com 3 faixas de rolamento cada uma com velocidade de 120 Km que liga Madrid ao Atlântico, ou seja trata-se de um boçal.

No km 160 da estrada peguei a N625, margeando o rio Esla, evitando entrar em León e que me levou a Riaño por pista única,  asfalto muito bom, como em todas as estradas até agora, e no final (já sendo chamada de N621) um trecho com uma gostosa serrinha e a chegada num belo lago  aos pés do Parque Nacional dos Picos de Europa, onde, para não perder o hábito, parei para umas fotos e acabei batendo papo com um motard de Bilbao que parou para fazer fotos também.

















sábado, 30 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 14

São João da Pesqueira – Miranda do Douro

30 maio 2015

Depois do dia de ontem, o que será que ainda iria me impressionar ? Pobre de mim, eu estava na Europa, mais precisamente em Portugal, onde estradas aguardam motociclistas dispostos a percorre-las porém sem deixar de ler e sentir suas histórias, aromas e sabores.  Não é pouco, não é pouco, podem ter certeza. Em uma pequena aldeia você encontra ruínas do Império Romano Na saída daquela  curva onde você está vibrando com o contra-esterço perfeito e a moto na inclinação correta você se surpreende com o muro de pedra da era medieval. Ao sair do café, onde parou para tirar a “água do joelho”, se espanta com uma igreja do século X, não vista na chegada pela premência do aflitivo momento. 
Esta região do Douro é onde se concentram vinícolas e quintas. O rio Douro corre, melhor seria dizer passeia, numa espécie de vale formado por montanhas onde se plantam videiras a perder de vista formando desenhos  que acompanham as dobras das encostas. A estrada fica numa posição mais alta o que permite apreciar cenários que, ao mesmo tempo lindos, podem se tornar perigosos caso o gajo se distraia. Recomendo parar, fazer as fotos e orar agradecendo o privilégio do momento.   
Miranda do Douro, a última cidade antes de entrar na Espanha é belíssima,  com pedaços de história que não podem ser ignorados.
Logo na chegada vi, ao longe, uma igreja e um grande muro de pedra. O frentista do posto de gasolina disse que era a Catedral e o Castelo. Pronto, foi o suficiente. Precisava de um dia de folga para descansar e colocar a escrita em dia. Acabei ficando mais um dia e estou terminando de relatar estes últimos 3 ou 4 dias. Hoje fui visitar o tal castelo, na realidade não era bem isso mas sim coisa muito melhor. Peguei a moto e fui seguindo as torres da Catedral e cheguei ao local. Meus amigos, uma cidade medieval inteira me esperava cercada por uma muralha de pedra e incrivelmente conservada com ajuda da Comunidade Europeia.  O melhor de tudo é a possibilidade de entrar carros e motos em seu interior pois o calçamento foi refeito, nos padrões próximos ao original e, em alguns locais, só moto passa devido à largura das vielas, que foram mantidas as originais. A Catedral, do século XVI, foi construída sobre os alicerces de uma igreja do século XIII que ruiu e isso criou um fato que chama a atenção. Como a igreja antiga servia como cemitério, costume muito comum na época, o piso da Catedral é todo de lajes móveis sob as quais estão sepultadas inúmeras pessoas. Algumas com inscrições originais gravadas nas pedras.
O reconquista cristã do vale do Douro ao Islã, durante os séculos IX a XI, deveu-se à implantação de castelos como base de fortificação territorial. Três séculos depois, em 1286, foi incorporada uma estrutura militar ao castelo gótico, construída por Don Diniz no século XIII,  que por ficar no alto de uma elevação dominava o istmo entre os rios  Douro e Fresno. No final do século XV, com a invenção da pólvora foi preciso reforçar as defesas e colocar bocas de fogo. Alguns bispos moraram ali até ficar pronto o palácio episcopal.
Em 1710 a cidade foi tomada à traição (dizem que um sargento-mor Pimentel a entregou aos espanhóis que penetraram pela chamada “porta da traição” que ainda hoje pode ser vista.
Em 1762 foi parcialmente demolido pela explosão do paiol de pólvora quando a cidade foi tomada por Carlos III da Espanha, na guerra dos 7 anos.
Jamais me atreverei a julgar fatos históricos e acho engraçadíssimo quando vejo alguém tentando fazê-lo. Penso que julgamentos devem ser feitos por pessoas que detenham todo o aparato, técnico e emocional para a tarefa. Por exemplo, conhecer leis, costumes e hábitos de uma época. Além disso ter acesso à todas as informações relativas ao evento, vale dizer: o ambiente em que se deu, as motivações, provas, contra-provas e tudo o mais que faria parte de um processo. Não basta um historiador deitar falação para aquilo ser considerado uma prova válida. Por fim  o mais importante, fundamental até no julgamento de um ladrão de galinhas. O amplo direito à defesa que, no caso, fica prejudicado pois é um julgamento onde existem apenas “juízes” e “promotores”,  na sua maioria  já  com a sentença debaixo do braço.   













sexta-feira, 29 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 13

Fátima – São João da Pesqueira

29 maio 2015

Desacreditando totalmente do GPS, sai de Fátima já com uma rota estabelecida: iria até Aveiro e de lá iria por Vale de Coimbra, Castelo de Paiva, Oliveira Douro até chegar à Peso da Régua onde iria começar o roteiro do Douro, traçado pelo Jorge Meirelles. Foi a melhor decisão que tomei em toda a viagem, mas como discordar de um autêntico navegador português, conhecedor desta e d’outras paragens, afinal o gajo além de motociclsita é também jipeiro !  Bem verdade que no meio de tantos acertos eles descobriram a República Descacetada do Bananão mas caramba, ninguém é perfeito !
A região do Douro é uma coisa linda e, mais ainda, própria para quem sente prazer em pilotar uma motocicleta e adora fazer parte de um  cenário que vai se renovando a cada curva. O rio pode ser o mesmo, as parreiras podem ser as mesmas mas a cada curva da estrada, e são muitas, eles como que se renovam obrigando-nos, àqueles que realmente são motociclistas, a fazer o mesmo e, certamente por isso, termino a viagem sempre com a sensação de ter deixados uns bons 30 anos pelo caminho.













E foi assim, espalhando velhice pelo caminho, que cheguei a pequena e deliciosa São João do Pesqueiro. Uma cidade com cerca de 2.000 habitantes e uma biblioteca municipal de dar inveja a muitas capitais de nosso país.
Uma pequena igreja, em frente ao hotel em que fiquei, com uma placa informando ter sido edificada no século XIV.  Céus, estou me sentindo tão moderno ! 
No pequeno restaurante, a comida tinha acabado mas a cozinheira não iria me deixar sair com fome, um bife de vitela com arroz, fritas e uma jarrinha de vinho. Não era Sangue de Boi mas não dava para reclamar, maravilhoso e “matei”  a jarrinha até o último gole.

Sem dúvida um belo dia.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 12

Porto – Fátima

28 maio 2015

Depois de uma noite agitada, cheguei do Motoclube do Porto às 2 da manhã, acordei às 8, banho, café e moto na estrada. O “tirinho” à Fátima seria  relativamente curto (uns 200 km) e eu chegaria inteiro. Só que eu não contava com o cretino do GPS me sacaneando o tempo todo. Cheguei a pensar que o mapa estivesse desatualizado mas entrei no site do fabricante e é a última versão, imaginem a penúltima !  O infeliz não sabia onde era a cidade de Ourém, Fátima, Batalha ou qualquer outra que não fosse Porto. Ficou apaixonado pelo Porto o desinfeliz do Tomtom Macoute. O pior é que em alguns momentos ele identificava Fátima e traçava uma rota, cai na asneira de tentar obedecer as indicações e o cretino me mandou para estradas de terra, verdadeiras trilhas ! 



Acabei por ignora-lo completamente e consegui chegar a Fátima utilizando o mapa Michelin que sempre levo.
Fátima é um lugar indescritível. Claro que existe uma grande exploração comercial  mas o lado espiritual é muito mais forte. Cada um enxerga, sente e usufrui  de acordo com sua própria interpretação, respeitadas as interpretações alheias. Cansei-me de ver verdades ontem inquestionáveis, hoje virarem motivo de galhofa. De ver a ciência, tantas vezes invocada, outras tantas desmentidas tempos depois.  Quando lembro dos maiores luminares da medicina, em épocas passadas,  fazendo transfusões usando sangue de cavalos não posso deixar de compara-los com a arrogância e a empáfia dos luminares de hoje que se querem sabedores dos momentos em que começa e deve terminar a vida, entre outras  estultices (essa foi para tirar Camões do ostracismo). Bando de presepeiros, piores mil vezes que velhos metidos a motociclista.
Bem, mas isso é papo de leigo. Afinal fui à Fátima prestar meu tributo, agradecer e pedir um pouco de paz e compreensão neste nosso planeta. 















Não pude entrar no Santuário que está em obras, a imagem de Fátima foi colocada numa espécie de capela improvisada na enorme praça entre a nova e moderna Igreja da Santíssima Trindade  e o Santuário de Fátima.
Fiquei num hotel excelente por 30 Euros (com um café da manhã sensacional) e um restaurante onde jantei, polvo à lagareira com vinho - Sangue de Boi, lógico, por 14 Euros.