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quarta-feira, 3 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 17

PAMPLONA – FISCAL

3 junho 2015

Sai de Pamplona  e ao invés de tomar o rumo de Jaca optei por ir via Roncal. Embora mais distante uns 80 Km foi uma recomendação de Jorge “Mi Coronel” de Arraial do Cabo, afinal o cara nasceu em Pamplona e conhece toda essa área. Bem verdade que quando ele liderou o comboio para Ushuaia (em 2007) erramos o caminho várias vezes : em uma delas erramos de país, entramos no Chile achando que era Argentina ! Isto me levou a entender porque os espanhóis descobriram tantas terras – eles erravam o caminho !
Mas dessa vez “Mi Coronel” acertou em cheio, fui parar numa cidade da idade média. Mesmo as casas que pareciam não ser de pedra, deixavam uma parte da parede sem o reboco para mostrar a estrutura de pedras. Muitas com roseiras subindo pelas paredes. Não existem ruas mas sim corredores entres as casas, em algumas nem de motocicleta dá para passar.











Fiquei quase duas  horas por lá antes de colocar Jaca no meu horizonte. Como o Tomtom não é confiável, perguntei no posto de gasolina se estava no caminho certo e o frentista, espantado, falou que não,  eu deveria voltar 30 ou 40 Km e pegar a Autobia. Bom, foi uma dificuldade explicar que eu preferia ir por outra estrada que não a Autobia. Com cara de quem me achava louco ele falou para eu continuar então por onde ia afinal era a única alternativa, “La carretera Del pântano”. Ou eu estava cego ou não havia pântano nenhum, apenas o rio Asca correndo ao lado de uma estradinha bem simpática. 
Quando saímos da "Carretera del Pantano" uma planície se abre à nossa frente e a estrada divide uma plantação de trigo onde, à esquerda, o dourado de sua cor informa que está pronto para a colheita e forma um incrível contraste com o verde do trigo à direita da estrada.





Depois desse belíssimo visual achei que já tinha visto toda a beleza que o dia poderia me proporcionar e agradecendo a Deus seguia em direção a uma estranha elevação em meio àquela planicie. Quando me aproximo, descubro que o topo da colina era ocupado por uma cidade protegida, em todo seu redor, por mata nativa: uma fortificação que, além de perfeita, compunha um quadro extraordinário com as curvas da estrada. Que maravilhosa surprêsa ! É, parece que o Tomtom acertou dessa vez. Melhor não elogiar.









terça-feira, 2 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 16

RIAÑO – PAMPLONA

2 junho 2015

Hoje pela manhã depois de todo paramentado, moto com  bagagem arrumada e tanque cheio, saio do hotel e quando vou entrar na estrada vejo o lago em frente. Meus amigos, desliguei moto, tirei capacete e luvas, peguei a câmera fotográfica e o horário que tenha a santa paciência, uma visão daquela justifica tudo. Fiz o melhor possível pensando como aquela beleza foi a tristeza e ruína para muita gente. A estrada para Potes acompanha o rio Esla que, junto com o Yuso e o Orza forma a represa que inundou vale do Riaño e as 7 cidades que ali existiam. A forma com se deu foi traumática, sendo os habitantes expulsos por forças militares que ocuparam o vale até o dia em que foram fechadas as comportas, 31 de dezembro de 1987, um dia antes da entrada em vigor da diretiva europeia que, por motivos ambientais,  proibia construções de represas como a de Riaño. Loucuras dos homens...



O trecho entre Riaños e Potes é curto, cerca de 60 Km, e ótimo para a pilotagem, sendo que sua beleza, por vezes, tira a concentração de um circuito que exige muito do conjunto moto-piloto.
Saindo de Riaños, sempre subindo, passamos pelo Parque Picos de Europa, as curvas e a subida vão ficando cada vez mais acentuadas, frequentemente “cotovelos” de 180 graus em aclive obrigando uma primeira marcha até atingirmos o ponto culminante, exatamente na divisa entre  as Comunidades Autônomas de Castilla y Léon e Cantábria, onde há uma estação de Sky.   






A descida, também linda, exigia ainda mais, agora os freios também. Como de hábito, mantenho um nível de segurança que permite a pilotagem com um mínimo de adrenalina mas agora, longe de casa, com uma moto que não me pertence, sozinho e numa estrada sem movimento, aumento um pouco mais esse nível mas ainda assim sem atrapalhar ninguém e, claro, usando sempre o “freio motor”. 
Lá ia eu tranquilamente quando vejo pelo retrovisor um grupo de motos se aproximando, encostei na direita e os caras passaram voando baixo, o que estava no final do “bonde” acabou me ultrapassando na curva sem se importar com a possibilidade de um carro em sentido contrário. Devem ter achado muito engraçado. No dia seguinte parei para socorrer um deles preso em baixo da moto. O sacana caiu numa reta, naquela calha de concreto na lateral da pista. Seus colegas ainda estavam chegando porém eu estava mais próximo e fui ajudar o cara a sair debaixo  da moto.  Apenas arranhões, um retrovisor quebrado e algumas marcas numa Honda Transalp. Agradecimentos, apertos de mão e lá fui eu pensando: “- Tanto lá como cá é tudo a lesma lerda !” 





De Potes a Santander continuei por estradas secundárias e mais uma vez fui abençoado. Que estrada !  Que cenários ! Peguei a direção de Hermida e logo entrei num Canyon que quase nos intimidava. Altas escarpas, a estrada roubada à rocha à direita e o rio Deva correndo à esquerda, limitado pelo paredão que subia até impedir a visão do céu. Lindo mas o melhor me aguardava: a cada 5 a 10 Km um pequeno povoado de não mais do que umas 50 casas, quase todas de pedras, algumas remanescentes da idade média, onde a estrada era a avenida principal. Todas com jardins ou vasos de flores, como que saudando os passantes mesmo que fossem um velho motard e sua fiel escudeira. Maravilhoso.








Em Santander, já no principado das Astúrias, caímos num transito infernal. Errei a estrada umas 4 vezes (3 delas com ajuda do “carcará sanguinolento”) e acabei perdendo um tempo enorme. A solução foi entrar numa Autovia de 120 Km e apertar o passo para correr atrás de um hotel em Pamplona. Consegui aos 45 do segundo tempo. Agora era banho, comer algo e dormir pois amanhã temos mais trabalho pela frente.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 15

Miranda do Douro – Riaño

1 junho 2015

Hoje comecei a segunda parte do roteiro traçado pelo Jorge Meirelles. O objetivo é Andorra porém passando por um roteiro sugerido por ele que conhece bem a área. Muitas vezes amigos sugerem cidades, locais especiais ou roteiros de dar água na boca e não entendem, como nós motoqueiros, trocamos o charme, o conforto e a segurança dos grandes circuitos por estradas sinuosas, na maioria das vezes em montanhas, com raros postos de combustível,  passando por vilarejos quase desconhecidos para, ao final, sujos,  cansados e com os olhos brilhando prometer repetir o circuito recém terminado. Só quem é do ramo entende e por isso digo que foi uma sorte encontrar o apoio do pessoal do Motoclube do Porto e, em especial, o do paciente e fraternal  Jorge Meirelles. Assim como esta viagem, ficará também gravada entre minhas melhores lembranças a irmandade que encontrei entre os “motards” portugueses.  Os gajos carregam n’alma o mesmo espírito aventureiro que fizeram este país, contra todos os fatos, tornar-se uma das maiores potencias marítimas na época das grandes navegações.  
Isto posto, voltemos à perna entre Miranda do Douro e Riaños. A primeira fase, aquela em território português, me impressionou pela perfeição do conjunto: estradas para quem gosta de pilotar, paisagens de tirar o fôlego, vilas e cidades onde se respira história e uma gente que nos recebe com a alegria de reencontrar um irmão d’além mar. Depois de tudo isso imaginei que a segunda parte, já agora em território espanhol, muito dificilmente estaria à altura da primeira, afinal, e como fosse pouco,  eles não tem o Douro, pensei. Mais uma vez precipitei-me, já na entrada da Espanha começa uma região de barragens cujos lagos refletem ruínas deixadas por antigos habitantes. E foram tantos os que se sucederam ao longo dos milênios que tornou-se fácil identifica-los pela sua influencia nas relíquias históricas deixadas pelo caminho: romanos, mouros, visigodos, saxões, bretões, gauleses, etc.
Como sempre, muitas paradas para fotos ou, simplesmente, para entrar e fazer parte de um cenário, mesmo que por poucos minutos,  afinal é o que ainda fazemos no grande espetáculo chamado vida.
Com tudo isso, o tempo de viagem foi aumentando e resolvi acelerar o passo, a melhor saída para faze-lo era buscar uma autovia e “enroscar o cabo” mantendo 120 Km e de vez um quando um “outlaw” para acompanhar os mais apressados. Nesse momento o Tomtom Macoute entrou em parafuso e me informava que não havia estrada sob as rodas da Brigitte. Enlouqueceu totalmente, só o mantinha ligado para controlar a velocidade já que montei todo o roteiro baseado no Atlas de Carreteras Michelin. A estrada que ele jurava de pés juntos não existir é a A6, duas pistas com 3 faixas de rolamento cada uma com velocidade de 120 Km que liga Madrid ao Atlântico, ou seja trata-se de um boçal.

No km 160 da estrada peguei a N625, margeando o rio Esla, evitando entrar em León e que me levou a Riaño por pista única,  asfalto muito bom, como em todas as estradas até agora, e no final (já sendo chamada de N621) um trecho com uma gostosa serrinha e a chegada num belo lago  aos pés do Parque Nacional dos Picos de Europa, onde, para não perder o hábito, parei para umas fotos e acabei batendo papo com um motard de Bilbao que parou para fazer fotos também.

















sábado, 30 de maio de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 14

São João da Pesqueira – Miranda do Douro

30 maio 2015

Depois do dia de ontem, o que será que ainda iria me impressionar ? Pobre de mim, eu estava na Europa, mais precisamente em Portugal, onde estradas aguardam motociclistas dispostos a percorre-las porém sem deixar de ler e sentir suas histórias, aromas e sabores.  Não é pouco, não é pouco, podem ter certeza. Em uma pequena aldeia você encontra ruínas do Império Romano Na saída daquela  curva onde você está vibrando com o contra-esterço perfeito e a moto na inclinação correta você se surpreende com o muro de pedra da era medieval. Ao sair do café, onde parou para tirar a “água do joelho”, se espanta com uma igreja do século X, não vista na chegada pela premência do aflitivo momento. 
Esta região do Douro é onde se concentram vinícolas e quintas. O rio Douro corre, melhor seria dizer passeia, numa espécie de vale formado por montanhas onde se plantam videiras a perder de vista formando desenhos  que acompanham as dobras das encostas. A estrada fica numa posição mais alta o que permite apreciar cenários que, ao mesmo tempo lindos, podem se tornar perigosos caso o gajo se distraia. Recomendo parar, fazer as fotos e orar agradecendo o privilégio do momento.   
Miranda do Douro, a última cidade antes de entrar na Espanha é belíssima,  com pedaços de história que não podem ser ignorados.
Logo na chegada vi, ao longe, uma igreja e um grande muro de pedra. O frentista do posto de gasolina disse que era a Catedral e o Castelo. Pronto, foi o suficiente. Precisava de um dia de folga para descansar e colocar a escrita em dia. Acabei ficando mais um dia e estou terminando de relatar estes últimos 3 ou 4 dias. Hoje fui visitar o tal castelo, na realidade não era bem isso mas sim coisa muito melhor. Peguei a moto e fui seguindo as torres da Catedral e cheguei ao local. Meus amigos, uma cidade medieval inteira me esperava cercada por uma muralha de pedra e incrivelmente conservada com ajuda da Comunidade Europeia.  O melhor de tudo é a possibilidade de entrar carros e motos em seu interior pois o calçamento foi refeito, nos padrões próximos ao original e, em alguns locais, só moto passa devido à largura das vielas, que foram mantidas as originais. A Catedral, do século XVI, foi construída sobre os alicerces de uma igreja do século XIII que ruiu e isso criou um fato que chama a atenção. Como a igreja antiga servia como cemitério, costume muito comum na época, o piso da Catedral é todo de lajes móveis sob as quais estão sepultadas inúmeras pessoas. Algumas com inscrições originais gravadas nas pedras.
O reconquista cristã do vale do Douro ao Islã, durante os séculos IX a XI, deveu-se à implantação de castelos como base de fortificação territorial. Três séculos depois, em 1286, foi incorporada uma estrutura militar ao castelo gótico, construída por Don Diniz no século XIII,  que por ficar no alto de uma elevação dominava o istmo entre os rios  Douro e Fresno. No final do século XV, com a invenção da pólvora foi preciso reforçar as defesas e colocar bocas de fogo. Alguns bispos moraram ali até ficar pronto o palácio episcopal.
Em 1710 a cidade foi tomada à traição (dizem que um sargento-mor Pimentel a entregou aos espanhóis que penetraram pela chamada “porta da traição” que ainda hoje pode ser vista.
Em 1762 foi parcialmente demolido pela explosão do paiol de pólvora quando a cidade foi tomada por Carlos III da Espanha, na guerra dos 7 anos.
Jamais me atreverei a julgar fatos históricos e acho engraçadíssimo quando vejo alguém tentando fazê-lo. Penso que julgamentos devem ser feitos por pessoas que detenham todo o aparato, técnico e emocional para a tarefa. Por exemplo, conhecer leis, costumes e hábitos de uma época. Além disso ter acesso à todas as informações relativas ao evento, vale dizer: o ambiente em que se deu, as motivações, provas, contra-provas e tudo o mais que faria parte de um processo. Não basta um historiador deitar falação para aquilo ser considerado uma prova válida. Por fim  o mais importante, fundamental até no julgamento de um ladrão de galinhas. O amplo direito à defesa que, no caso, fica prejudicado pois é um julgamento onde existem apenas “juízes” e “promotores”,  na sua maioria  já  com a sentença debaixo do braço.