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terça-feira, 23 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 31



31 - GÊNOVA – PISA 

 23 de Junho de 2015, 16:38 


Gênova, como cidade, foi uma decepção. Suja, com prédios em péssimo estado de conservação, quarteirões inteiros com obras paralisadas, muita gente trabalhando como flanelinha, camelôs ou simplesmente mendigando. Nota-se, nos italianos residentes, uma aversão crescente à imigração sem controle. 
Na saida do centro, em direção ao Porto a coisa vai melhorando e os prédios em tons pastéis debruçados nas encostas que terminam no Mare Ligure (Mediterrâneo) dão um colorido que nos faz esquecer os quarteirões que ficaram para trás. 













Ainda tentei conhecer o Porto Antico, mas sinceramente, desanimei. A sensação de insegurança é grande. Apesar do estacionamento para motos ser gratuito, você é abordado por grupos de cêrca de 10 “guardadores” que tentam insistentemente lhe vender bugingangas. 




Tirei 2 ou 3 fotos e peguei a estrada em direção à região de Cinqueterre (compreende as comunas de Monterosso, Vernazza, Riomaggiore e os distritos de Corniglia e Manarola). O astral foi melhorando, estradas mais apropriadas para motos e afastando-me do transito louco e coalhado de scooters do centro. 




Quando chegamos ao Parque Nacional de Cinque Terre, instituído em 1999 para preservar “terraços” e muros que os sustentam e onde são cultivadas uvas naquelas encostas íngremes, a coisa ficou realmente boa. Minha curiosidade era conhecer a técnica para o cultivo e colheita de parreiras naquelas inclinações. Na realidade é uma espécie de “ovo de Colombo”: o pessoal da região desenvolveu um  carrinho que anda sobre um trilho. Na parte inferior do trilho tem uma cremalheira que se adapta ao motor do carrinho. Como os trilhos são colocados entre as plantas, subindo e descendo e passando por cada abismo que tremo só de olhar, o piloto vai colhendo os cachos e colocando no reboque preso ao carrinho. Foi a forma que encontraram de plantar  com aquele grau de inclinação. 





Depois de satisfeita a curiosidade, segui pela estrada que, do alto, permite uma visão privilegiada do mar e das pequenas aldeias de pescadores e agricultores lá embaixo. Mas meu objetivo era Manarola, considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. Trata-se de uma vila de pescadores, com suas casas onde a cor ocre predomina, parece que uma tradição da Toscana, descendo pelo costão em direção ao mar. O trânsito de carros é proibido no trecho mais próximo ao mar. Assim você tem de estacionar a 2 km do centro. 










Valeu a pena a visita, a cidade é mínima e muito bem cuidada. A maioria da população (umas 600 ou 700 pessoas) na sua maior parte vivem do turismo, seja com restaurantes, albergues, venda de lembranças e outros comércios ligados à área. Pelo menos apagou a má impressão de Gênova.  

Para completar, a chegada a Pisa ao entardecer foi um convite a um tour pela cidade terminando, lógicamente, na praça onde está a tal da torre inclinada com um monte de turistas em volta fazendo "selfies" ou fotos simulando segurar a torre... 












domingo, 21 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 30





30 - ANDERMATT – GÊNOVA 

21 de Junho de 2015, 16:08 



Acordei muito cedo para abastecer a moto. Por volta de 6 da matina já estava no posto torcendo para a operadora do cartão continuar aceitando minhas mudanças de cidades e países. Até agora tudo bem. 


Coloquei a Brigitte junto às motos do grupo e neste ponto abro um parêntesis. O grupo contratou uma operadora da Eslováquia, com a qual já tinha trabalhado no ano passado, para montar toda a programação e estrutura. Acho extremamente válido para quem vai viajar com esposa, além de não ter muito tempo para desperdiçar com atividades burocráticas: aluguel de motos, reserva de hotéis, montar roteiros, apoio, etc. O responsável pelo grupo, falando um português perfeito, muito simpático e extremamente profissional, conversou comigo sobre meu tour, deu algumas sugestões e falou-me que, se eu quisesse, poderia me juntar ao grupo para seguir junto até Chamonix. Falei que, em princípio iria para Milão, e me separaria do grupo próximo ao trevo para Milão. Perguntei se isso não lhe traria problemas, afinal aquela era uma atividade de prestação de serviço, com investimentos, gastos, etc. Ele então me deu uma resposta que é um exemplo para quem quer se aventurar no ramo: “- Antes de mais nada somos dois motards, jamais abandonamos um motard na estrada, esteja no grupo ou não. Além disso, é uma forma de você conhecer nosso trabalho, quem sabe um dia você não se torne nosso cliente?”. Companheirismo e inteligência que faltaram uma ocasião em que pensei me encontrar com um grupo de brasileiros na terra de Marlboro - o organizador pediu-me para não ir.... Fecha parêntesis.




Depois disso passei a fazer parte do grupo e iniciamos a descida juntos. Me deixaram à vontade para procurar meu lugar no “bonde” e escolhi ficar na cola de Tio Perez e assim fizemos a descida com um frio intenso, eu de luvas curtas (com os dedos de fora – esqueci de calçar as de frio) estava ficando com os dedos roxos, mas não quis pagar o mico de interromper a marcha, até que começou a nevar. O para-brisas da Brigitte é imenso e ficou logo todo branco tapando-me a visão. Tinha que fazer uma ginástica tremenda para enxergar, inclinava o corpo para os lados num movimento desencontrado com a dança natural que resulta de uma pilotagem decente. Graças a São Cypriano demos uma parada e pude calçar as luvas de inverno. Meus dedos doíam terrivelmente. Limpei o para-brisas e a viseira e continuamos a caminhada. As nuvens foram ficando para trás, a neve parou, mas a garoa mantinha a estrada molhada e meu medo era a possibilidade de criar camadas de gelo, principalmente nas pontes.









Terminando o Furka, piso seco, porém com muito transito em sentido contrário, deu para apertar um pouco o passo e assim chegamos ao ponto onde nos despediríamos. Fotos, abraços e um aperto no coração vendo partir aquele grupo alegre e barulhento que deixou sorrisos e saudades no seu rastro. Mais uma lição que a estrada nos dá: temos de aprender a lidar com as mudanças que acontecem a cada instante. São paisagens que ficam para trás, medos que foram vencidos, promessas jamais cumpridas e, mais do que tudo, a certeza do reencontro a nos impulsionar na direção do horizonte onde, tenho certeza, tudo acontece. 




Deixando as infantilidades de lado, na hora em que o grupo ia saindo, liguei a moto, “setei” Milano no Tomtom e falei com o Perez, "- O GPS está me dizendo que vai ter uma travessia marítima para Milão." O Perez riu achando que eu estava de sacanagem. Bem, vou ver onde esse sacana quer me levar. Comecei a seguir o Tomtom e ele me mandou para uma estrada no sentido oposto a Milão e, depois de uns 1.000 metros, mandou-me entrar em uma rua à direita e informou que 10 metros à minha frente havia UM BARCO! Filhodaputa louco. Fiz a foto para vocês não duvidarem! UM BARCO! Filhodaputa mil vezes... 




Depois disso desliguei-o e fui pelo Michelin. Atravessei o Simplon Pass por uma estrada lindíssima onde tentei fotografar ao mesmo tempo em que pilotava. Claro que as duas atividades ficaram prejudicadas, mas relevem, pelo menos tive boa vontade. 













Logo após o Pass, mudei a rota para Gênova, pegando uma daquelas autoestrada de 130 km/h de velocidade máxima. A Brigitte precisava de um exercício e eu de água quente e cama.

sábado, 20 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 29



CHAMONIX-MONT-BLANC – ANDERMATT

20 de Junho de 2015, 09:21



Quando clareou o dia, olhei pela janela e o Mont-Blanc, no quintal do chalet para mochileiros onde fiquei hospedado, contrastava com o céu azul sem uma nuvem sequer. Vou levantar e fazer uma foto padrão Mestre Adriano Machado, pensei. Mas, amador é amador, fui tomar banho antes e com isso as condições climáticas mudaram radicalmente. Isso aqui é muito comum. De qualquer forma, fiz algumas fotos para não perder o hábito.







Depois do belo desjejum, ainda chateado pela foto perdida, peguei a estrada em direção a Andermatt (Suiça), onde tinha agendado um encontro com Tio Carlos Alberto Perez Muiños.




Notei que o GPS estava de bom humor e quase que me estrepo. Quando dei pela coisa o infeliz me colocou na cara do tal túnel de 12 km VOLTANDO! Xingando todos os estagiários que desenvolveram aquele monstro, no limite da responsabilidade, fiz um retorno em uma espécie de “chicane” para carros de apoio e, sob os olhares espantados dos guardas, voltei como uma flecha rezando para eles não terem paciência para me seguir. Parei um pouco mais à frente (uns 20 km) abri o Guia Michelin e ignorei os “comandos” do GPS. E foi assim que descobri estradas maravilhosas, pontos para fotos incríveis e uma visão espetacular do Vale Du Rhône - Ródano em francês.













Depois de uns 100 km, o GPS parece que tomou juízo e começou a me acompanhar, a direção era o Furka Pass, considerado um dos “Top 10 Roads” da Europa.




Próximo ao início do Furka (olha só a intimidade), havia um túnel com três pistas de rolamento, todas as três para o Furka Pass. O GPS colocou na tela aquela inequívoca setinha quebrada indicando a pista da direita. Obedeci e neste ponto teve início uma comédia. Enquanto as duas pistas da esquerda seguiam, separada por uma mureta, a pista da direita me levou para uma espécie de pátio. Vi uma cabine, uma cancela, uma moto parada e um casal se abrigando da chuva que descia com força. Perguntei ao cara, um americano, para onde eles iam. Descobri que meu inglês é pior ainda do que eu pensava. O cara pensou que eu estivesse falando em italiano e mandou a mulher dele responder em italiano. Ela me disse que tinha de comprar o ticket e me apontou uma espécie de escritório no que parecia ser uma estação ferroviária. Fui comprar o ticket para abrir a cancela do “Peáge” suíço e descobri que o trem só sairia dentro de 2 horas. TREM? De onde apareceu esse trem? Sim meus amigos, era uma estação ferroviária onde os mais coxinhas do que eu colocam moto, carro, sogra e demais ítens perigosos a bordo, aboletam-se numa poltrona e cruzam o Furka Pass heroicamente. Juro que quase compro uma passagem para o GPS, afinal o desgraçado estava morrendo de medo de ir comigo (não lhe tiro de todo a razão!).





A travessia é linda, porém cascuda. Um frio intenso, ventando muito, nuvens baixas, pista estreita e gelo em muitos pontos. Na medida em que você vai atingindo o ponto culminante, dentro das nuvens literalmente, uma cerração em que você vê no máximo 10 a 15 metros à frente. Muito, muito desconfortável. Quando melhorou a cerração, parei um pouco para relaxar, mas começou a nevar, uma neve bem miúda, mas eu sei em que isso pode se transformar. Montei na Brigitte, afaguei o tanque de gasolina da menina e falei baixinho: “Querida, tira a gente dessa. Sei que você também quer matar o Tomtom, mas ele está congeladinho de medo. Vamos lá gata!”.











Foi ruim, mas foi bom, aliás é sempre assim. Melhor ainda quando cheguei e ouvi gente falando no nosso português cheio de sotaque, e girias. Muito melhor foi encontrar Tio Perez com o grupo de 12 brasileiros que veio fazer os Alpes. No meio muita gente conhecida, a Alice Camargo, também jipeira. O Johny Boy, motociclista globe-trotter, Paracelso, que me vendeu a Naomi (uma RK 2007) e outros que tive o imenso prazer de conhecer. Desde que nos encontramos colamos como dois irmãos que não se viam a tempos (o que era a pura verdade).







Demos uma volta para conhecer a cidadezinha miúda e encantadora. Como isso foi muito rápido, partimos para “firmar o caráter”, jantar e dar boas risadas dos causos ocorridos em ambos os lados. Fui dormir feliz pelo belíssimo dia com que fui presenteado.