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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A vingança do Esbelto Infante
















“ – A homem que cisma de comprar carro velho ou casar com puta não adianta dar conselho “. 

A frase dita pelo meu pai há 50 anos, quando cheguei com um Jeep CJ5 caindo aos pedaços, adquirido contra a opinião de todos, me persegue e continua atualíssima. Até por que, desde então, os Jeeps CJ5 ficaram 50 anos mais velhos. 

Hoje em especial, voltando de uma viagem à Brotas, onde participei de uma trilha com um grupo de jipeiros de São Paulo, as palavras do “velho” não me saiam da cabeça. Não que tenhamos, eu e o Jeep, nos saído mal na trilha, muito pelo contrário até. Os desencalhes das modernas, reluzentes, refrigeradas e sonorizadas viaturas levadas a efeito pelo nobre e humilde Esbelto Infante, nome do meu Jeep, foram um sucesso ainda que a glória, como sempre, tenha sido efêmera. Logo que chegamos ao restaurante, onde iríamos comemorar o término da trilha, começaram as gozações: “-Você tem sorte, não paga IPVA, paga taxa de lixo.”; “-Seu CJ5 tem um valor numismático incrível.”; “-Quando chove você dirige de guarda-chuva e galocha ?”; “-É alguma penitência que você está fazendo ?”. 

Ouvi todas as barbaridades com um sorriso amarelo, fazendo força para manter um ar de desdém e, principalmente, a compostura já que o sangue italiano começava a borbulhar. O remédio era procurar meu quarto na pousada à beira da estrada e tentar dormir pois, além de tudo, uma irritação na pele impedia barbear-me, o que causava uma furiosa coceira. 

Quase sempre esqueço as gozações tão logo me aboleto ao volante do Esbelto e aponto sua proa para o horizonte mas desta vez não deu. Gozações, irritação na pele e uma noite mal dormida no quarto de frente para a estrada era tudo o que eu não precisava para a longa viagem de volta. Mas, fazer o quê ? Filhos, netas, uma virtual mulher amada e credores me esperavam. Os últimos, talvez mais ansiosos. Esqueçamos o desjejum mequetrefe que me fez saber, literalmente, o que é “comer o pão que o diabo amassou.” Antes de mais nada, um pré-analgésico para a traiçoeira enxaqueca que espreita na terceira curva da viagem. Sento-me ao volante do Esbelto Infante, giro a chave de ignição e a primeira notícia boa do dia: o motor ronronando como uma gata no cio. Pelo menos isso, pelo menos isso, penso. Afinal, até Cabo Frio, nosso destino, 900 Km de estradas nos aguardam. 

O primeiro trecho da viagem, até Campinas, foi humilhante. Esbelto Infante mantendo uma velocidade de cruzeiro de honestos 80 Km/h e sendo espalhafatosamente ultrapassado pelos modernos SUV (é como eles gostam de chamar, acho que é de Sport Utility Vehicle) da turma que fez a trilha e saiu depois de nós. Era quase pornográfica a forma como businavam ao nos ultrapassar. Alguns diminuíam, e esses eram os piores, berrando pela janela: “-Cuidado com o radar de velocidade vovô !”. E lembrar que rebocamos vários desses cretinos! 

Já na Dutra, após descermos pela Via Dom Pedro até Jacareí, a enxaqueca derrotou o pré-analgésico. Fiquei com medo de tomar outro, a luta contra a sonolência já era terrível. Sono, calor, tráfego pesado, barba coçando, isso só fazia aumentar o mau humor. Aumentei um pouco a velocidade para 90 Km/h de olho na temperatura do motor. 

A falta de portas e janelas no Jeep permitia a entrada da fumaça da descarga dos ônibus e caminhões, tão densa de óleo diesel que parecia ser possível corta-la com uma faca. Pelo menos a irritação no rosto melhorou, acredito que tenha sido o óleo diesel mas como não existe almoço grátis, o mesmo diesel que agia como um bálsamo para a pele embaçava os óculos às raias da cegueira. O fato é que eu seguia irritado, triste, mal humorado e com as palavras de meu pai latejando em minha cabeça ao ritmo da enxaqueca: “ – ...comprar carro velho, não adianta dar conselho “, “ – ...comprar carro velho, não adianta dar conselho “, “ – ...comprar carro velho, não adianta dar conselho “. 

Numa das olhadas pelo retrovisor vejo se aproximando um Land Rover modelo Defender 110 prateado, desses que o pessoal que “chegou lá” adora chamar de “Def 110”. 

A contragosto devo confessar que o carro era lindo, posto que novo e cinematograficamente equipado: snorkel, pá, machado, bagageiro no teto, escada, guincho, antenas de vários tipos e toda aquela parafernália que esse pessoal usa para impressionar os vizinhos. A bordo um casal. Ele, com um boné que deve ter custado uma imoralidade e ela, com óculos escuros dessas grifes metidas a besta e um lenço vermelho no pescoço. Enfim, um casalzinho que não só chegou mas estava “lá”. 

A velocidade deles não era muito maior do que a nossa, provavelmente vinham mais devagar para melhor discutir a relação (DR). O pessoal que “chegou lá” adora brigar na estrada. O fato é que fui para a direita e esperei-os passar aguardando uma saudação, nem que fosse de gozação, afinal é quase uma convenção entre jipeiros. 

Quando a Land Rover chegou a meu lado, a mulher, sempre olhando para a frente, levantou o queixo 2 gráus acima da linha do horizonte e, posso quase que jurar, semi-cerrou os olhos com ar de desdém . O babac....., quer dizer, o cidadão, também com o queixo empinado, ainda deu uma olhada de cima prá baixo como que com nojo do que via. Não posso tirar de todo a razão da dupla pois o Esbelto estava coberto de lama e poeira e com a capota rasgada (lembrança de um galho de arvore na trilha). Eu, descalço, sem camisa, a calça imunda arregaçada até o meio das canelas e a cara untada de óleo diesel, fuligem, moscas e mosquitos. Claro que uma dupla daquelas não iria se dignar a falar com alguém que não se sabe de onde veio nem para onde vai. Se é que conseguirá ir a algum lugar com aquele tipo de veículo que não seja um desmanche, devem ter pensado . 

De qualquer forma, antes que a Land acabasse de cruzar com o Esbelto e antes que eu concluísse meu pensamento: "Que grandessíssimos filhos da p.... !", vi o sorriso mais lindo de toda a viagem, embora tenha sido o famoso sorriso "1001". O quê ? O ilustre leitor não sabe o que é sorriso "1001"? Simples, eu explico, eu explico: é aquele em que faltam os dois dentes da frente da arcada superior, os chamados incisivos. O fato é que um moleque de uns 6 ou 7 anos, sentado no banco traseiro da Land Rover, ao ver o Esbelto Infante e seu intrépido piloto, como que acordando de um pesadelo, levantou o polegar fazendo o sinal de positivo e, sempre com aquele maravilhoso sorriso, juntou o polegar ao dedo médio e, sacudindo a mão, batia com o dedo indicador no médio fazendo o tradicional gesto de "senta o sarrafo velho maluco!". 
Fui à loucura. Ganhamos a viagem (eu o Esbelto e o garoto). 

Fiquei imaginando o pobre do moleque ouvindo o papo dos dois idiotas: 

Ela: "-Silva (mulher que "chega lá" só chama o marido pelo sobrenome) preciso comprar um vestido para a recepção da Roseana Sarney" 

Ele:  "-Bel (de Belarmina, nome que ela odeia) aquele que você usou no julgamento do seu irmão no escândalo do BNDES esta ótimo" e por aí a fora.

A verdade é que o garoto foi o ponto alto da viagem. A partir daquele momento, nada mais me incomodou, até a enxaqueca desapareceu. O Esbelto Infante estava soberbo, o zunido dos pneus no asfalto era música aos meus ouvidos, o vento desmanchando as ralas melenas lembrava uma antiga e maravilhosa amada em intensos e especiais momentos. Como se não bastasse, um verdadeiro exagero em nossa homenagem: o sol se pondo tingindo de amarelo o horizonte. 

Tive pena do resto da humanidade ! Eu era um privilegiado e tinha consciência disso. 

No meio de tudo e por um momento, tive a nítida impressão de escutar uma esnobada do Esbelto Infante: "-Tá vendo só seu estouradinho, eu não ligo a mínima para o que falam de mim. Não ligo nem mesmo para elogios, condecorações, títulos e honrarias. Preocupa-me apenas a opinião das crianças pois são as únicas em que acredito. Experimente, faça um teste, ponha um monte de modernas, equipadas e velozes viaturas juntas a um velho e lendário CJ5. Solte as crianças e observe para onde elas correrão, qual o carro que vai lhes atrair como se fora um imã. Talvez então você comece a entender a frase imortalizada pelo Jipeiro-Mor: ‘DEIXAI VIR A MIM AS CRIANCINHAS !’” . 


É, além de sábio esse tal de Esbelto Infante é um poeta !






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