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segunda-feira, 9 de julho de 2018

AMERICAS TOUR 2018 - 20



MAIS UMA ESTRADA PARA NÃO ESQUECER

Van Buren - Trenton 9 julho 2018

Um problema logo na saída: tive um tremendo arranca-rabo como GPS. Ele esta cada vez mais insubordinado e se recusa a me obedecer. Não que lhe tire de todo a razão, às vezes nem eu mesmo me obedeço mas hoje ele passou dos limites. Não tive alternativa a não ser desliga-lo. Eu queria seguir pela US-1 e ele não aceitava meu comando de forma alguma, nem com ameaças. O velho motoqueiro que conheci ontem é da área e recomendou-me enfaticamente ir pela US-1. Trata-se de uma estrada mais antiga porém bem conservada, cortando fazendas, pequenas cidades e quase sempre margeando rios e lagos. Entre o GPS esclerosado e o velhote prefiro confiar neste último. Vamos ver no que vai dar.
Peguei a direção da saída da cidade e após algumas poucas milhas encontro uma enorme placa saudando Van Buren. A primeira vez que vi uma rua com esse nome foi em Illinois e imaginei tratar-se de uma homenagem às irmãs Van Buren. Mas uma cidade com o nome delas, apesar de serem duas gatas, achei um pouco demais. Fui pesquisar e descobri logo que se tratava de Marteen Van Buren, simplesmente o oitavo presidente dos Estados Unidos (de 1837 a 1841) e fundador do Partido Democrata.
Mas e as irmãs Van Buren ! Alguns perguntarão. Como mostra o sobrenome, eram descendentes de Marteen e apesar de ricas e frequentadoras dos altos círculos sociais, trabalhavam e atuavam na luta pelo voto feminino, entre outras coisas. Por ocasião da 1a. Guerra Mundial, em 1916 decidiram provar que mulheres poderiam pilotar motocicletas como mensageiras liberando homens para outras atividades. No ano anterior a primeira mulher a cruzar o continente americano de moto foi Effie Hotchkiss carregando sua mãe Avis no side-car. As irmãs Van Buren, Adelie e Augusta, compraram duas motos 1.000 cc e rodaram 5.500 milhas em 60 dias chegando até o México. Na época não haviam estradas, elas rodaram sobre terra, areia, lama, pedra e sabe-se lá mais o quê.
Conheci essa história no pequeno museu (com uma Amazonas brasileira no acervo) de um dealer HD no Colorado. Ele colocou a história e a foto das moças mas não a das motos. Eram Indians.....
Voltando às estradas, as dicas do velhote foram perfeitas. O Maine é um belíssimo estado. No início, com muito pouco transito, cruzamos enormes extensões cultivadas onde silos que estocam os grãos eram as únicas testemunhas de nossa passagem. À medida que descíamos em direção ao Sul a temperatura subia gradativamente. Não que ficasse desconfortável mas já dava para retirar a 2a. pele. E com isso, mais caprichada e elegante a pilotagem.
Afinal o Criador me presenteou com o sol na temperatura correta, o céu com nuvens formando o cartão postal que tento capturar com minha Canon e, para completar, a incrível sensação de estar vivo me equilibrando sobre um dos vértices de um triangulo invertido (by Cyro França).
Claro que a pilotagem tem de estar à altura, a começar da postura sobre a moto: coluna ereta, mãos pousadas naturalmente nas manoplas, pés firmemente apoiado nas plataformas (nada de pés esparramados como uma bicha louca), olhos semi-cerrados olhando para o horizonte como uma águia que caça sua presa (a policial canadense), para completar um sorriso de desdém pela curva que se aproxima velozmente. No último momento, o característico "clank" e a imediata subida dos giros a níveis másculos denunciam o engate de uma vigorosa redução de marcha. Uma leve pressão na manopla da direita e a Helô inicia seu doce balanço a caminho do ponto de tangência no lado interior da curva para a direita. A partir daí tudo se modifica (é como na dança), agora é olhar o ponto de saída e suave mas firmemente ir acelerando e levantando a moto para, quando na vertical, abrir o punho e fazer trovejar o velho Big Twin disparando corações.
E foi assim, de presepada em presepada que fui me aproximando do meu destino do dia. Paisagens lindas mas difíceis de serem fotografadas por falta de local seguro de parada. Algumas fiz do minúsculo acostamento mesmo, vocês merecem.
Fiquei impressionado em um trecho de 30 milhas coberto de bandeiras americanas de 100 em 100 metros. Recordação do 4 de Julho.
Quando cheguei ao hotel, depois de 400 milhas, cansado e imundo (um mosquitinho chamado "love-bug" nos atacou) quase caio para trás: hotel lotado e eu sem reserva. Fiz confusão com a data e além de ficar sem reserva ainda perdi a diária. A senhorinha ainda ligou para vários hoteis mas sem
sucesso. Todos lotados. Desejou-me "good luck" e botou-me para fora. Essas horas são bem chatas mas já passei por várias e no fim dá tudo certo. Liguei o GPS e coloquei na função "procurar hotel" e ele indicou-me uns 4 ou 5 em uma avenida ali por perto. O primeiro que vi tinha um letreiro interessante e foi ele mesmo o escolhido. Chiei do preço mas depois vi no Hotels.com que era o mais barato da região. Mais um que a herança dos garotos vai segurar.
Quando estacionei a moto formou logo uma mancha de óleo e o pneu traseiro trazia vestígios de óleo - um perigo. Problema para amanhã.
Por hoje já chega, pagar 80 dólares por um quarto de 2,5 x 2,5 e saber que o dono de hotel, muito risonho quando soube que eu era brasileiro, é belga ou alemão foi para encerrar o dia.
p.s. Teclei tudo isso quando estava na HD hoje resolvendo o problema da Helô (conseguimos) e quando chego no hotel para enviar perco tudo. Tive que escrever tudo novamente. A primeira versão acho que estava melhor, paciência.
























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