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sexta-feira, 4 de maio de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 4a. parte

Charlottesville, VA


Grande mocada (perdoem cedilhas e acentuacao faltante, e’ o treclado), continuando com as travessuras que a 3a (ou sera 4a. ?) idade nos permite, apresentei-me na Albermale High School para fazer o curso Basico de Motociclismo da MSF - Motorcycle Safety Foundation. A MSF e’ uma fundacao mantida pelos grandes fabricantes de motocicleta nos Estados Unidos:  Harley Davidson, Honda, Yamaha, KTM, BMW, Kawasaki,  Suzuki, Victory, etc. Seu objetivo e’ trabalhar para que o motociclismo se torne uma atividade cada vez mais segura e com isso reduzir drasticamente o numero de acidentes envolvendo motocicletas e, por consequencia, todos os seus impactos (sociais e economicos).   A MSF tem convenios com quase todos os Estados e ministra cursos, palestras e treinamentos alem de testes de avaliacao que servem, na maioria dos estados, como prova de habilitacao. Meu curso era dividido em 3 dias e em uma turma com 12 alunos com 2 instrutores.. No primeiro,  sexta-feira, uma aula teorica com exercicios em grupo e duracao de 4 horas. Nos dois dias seguintes, sabado e domingo,  aulas praticas das 7 da manha ate as 13 h. Achei excelente a didatica utilizada e conheci novas formas de exercicios. O que me impressionou foi a forma como os alunos levam a serio os ensinamentos, o respeito aos horarios e, principalmente, aos demais alunos pois nao vi uma so “gozacao” quando alguem caia (e nao foram poucos) ou errava um exercicio. No ultimo dia, ao final dos exercicios, foi montado um circuito de avaliacao que teriamos de cumprir recebendo a pontuacao dos dois instrutores. Em seguida, uma prova escrita com 50 questoes onde se exige um minimo de 80 % de acertos. Bem, consegui meu certificado e quando tiver uma carteira de motorista da Virginia poderei averbar a de motociclista. De qualquer forma ja’ posso utiliza-la para reduzir o custo do seguro da moto.



Eu ja conhecia a MSF e acompanho seu site com certa frequencia. A paixao dos Americanos por estatisticas ajudam a identificar, por exemplo, as maiores causa de acidentes com motociclistas e a desenvolver procedimentos para evita-los. Identifica tambem as areas mais atingidas dos capacetes em acidentes e com isso fazer recomendacao a usuarios e, eventualmente, a fabricantes.

O curso e’ pago (110 dolares) mas todo o material e’ disponibilizado pela MSF: apostilas, motos e gasolina (com um monte de octanas que da’ ate’ vontade de beber). No fim das contas, com cerca de 220 reais voce recebe um senhor treinamento e sai com sua carteira na mao. Simples assim.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 3a. parte


Continuando com nossas atividades aqui na terra de Marlboro, apos  3 dias trabalhando para eliminar os problemas decorrentes de falta de uso e excesso de mau gosto na Wing que, por sorteio, coube ao Cyro, e que agora esta que nem pinto no lixo com sua moto,





eis que e’ chegada a hora de tio Helio se mandar para Detroit e pegar a segunda Wing.  A coisa era aparentemente simples: um voo de Charlottesville a Detroit com uma conexao em Washington DC. Chegada prevista em Detroit as 13:30 hs, encontro com o vendedor da moto, receber a moto e iniciar a viagem para Charlottesville (cerca de 600 milhas) as 14:30 hs no maximo. Bem, para inicio de conversa quase fui preso no aeroporto de Charlottesville. Acontece que eu, macaco velho que sou e orientado pelo Comandante Cyro, levei algumas ferramentazinhas basicas para a viagem de volta, ferramentas estas que dispararam um alarme que parecia anunciar o apocalypse. Imaginem o espanto causado em um aeroporto quase rural e com pouquissimo movimento . Apos explicar o motivo das ferramentas recebi a sugestao de despacha-las como bagagem o que iria me custar 25 dolares. Como apenas 3 chaves excediam o tamanho maximo permitido para bagagem de mao e como as 3 custavam menos de 15 dolares, joguei-as no “garbage” (lixo em linguagem crista) e pronto, problema resolvido. Por enquanto, hehehehehe.

Apos embarcar com um atraso de quase 1 hora devido ao mau tempo, chego em Washington e perco a conexao por apenas 3 minutos. O proximo voo so sairia dai a 5 horas. Isso alterava todo o meu minucioso planejamento. Nesse ponto resolvo acionar  meus anjos da guarda: Cristiane e Bob, filha e genro do Cyro e o proprio Cyro. Eles refizeram todo o planejamento junto ao vendedor da moto de forma que quando cheguei a ao aeroporto de Detroit encontrei uma pickup Chevy branca rebocando uma Goldwing negra como o bigode do Sarney. Apos me apresentar ele, acompanhado  da esposa e de um amigo, levou-me ate um patio onde descemos a moto e ouvi a pergunta mais sem nexo de toda a minha vida: “-Voce quer dar uma voltinha ?”. O que responder, depois de sair de Cabo Frio e chegar na fronteira com o Canada para encontrar a danada da Camila ? Nao disse nada, subi na moto, fiz cara de motociclista, acionei a partida e sai usando toda a tecnica para evitar “micos” fora de hora. Algumas curvas para direita, outras tantas para a esquerda e deu para perceber que me entenderia muito bem a danada da neguinha. Despedi-me do Andy, o vendedor, coloquei minha bagagem na moto, coloquei a placa da Virginia que levei comigo (quando penso na burocracia do Brasil chego a tremer de vergonha) e fui em busca de um hotel pois era sabado,  20:30 hs e uma temperatura  de 8 graus centigrados.  



Domingo, apos um lauto café da manha, instalo o suporte para o GPS e percebo que a moto nao tem um isqueiro onde acoplar o carregador do GPS, afinal a moto e’ o modelo Interstate onde essas facilidades nao existem, diferente da moto do Cyro, uma Aspencade, que tem nada menos de 2 isqueiros alem de dezenas de outras comodidades. Bem, fazer o que alem de botar o pe’ na Estrada ? Sai de Detroit seguindo o GPS (que ainda tinha carga) e debaixo da maior ventania pego o rumo de casa. Nao andei mais do que duas milhas e meus bracos comecaram a doer mais do que a velhice justificava: o guidon estava posicionado para para uma pessoa de baixa estatura, o que era o caso do ex-proprietario, que alem de baixinho tinha o habito, segundo me contou, de colocar um chapeu de cow-boy, os pes naqueles ridiculos estribos que colocam no mata-cachorro alem de um charuto ( este ultimo creio que na boca)  e ficar dando voltas no quarteirao para impressionar os vizinhos. Parei a moto em um posto de gasolina, debaixo de um vento gelado cortante e com as ferramentas que levei consegui regular o guidon a meu gosto. A pilotagem ficou muitissimo mais gostosa, embora estranhando um pouco fui me soltando e em pouco tempo estava acompanhando o fluxo a 70 / 75 milhas sem problemas e com bastante folga. As curvas comecaram timidas ate que encontrei o ritmo certo e passaram a ser feitas em velocidades compativeis com a qualidade das estradas. O que da’ para perceber e’ que, embora seja uma moto muito facil de pilotar nao e’ pareo para uma HD Touring em curvas pois as Wings precisam inclinar bem mais do que uma HD para fazer a mesma curva, provavelmente em funcao de seu Caster maior. Isso sem falar no som do motor pois ai’ seria covardia.

Nesse primeiro dia planejei costear o lago Erie e proximo a Cleveland pernoitar. Quando estava proximo ao meu descanso o Cyro me chama no radio  e avisa para eu fugir o mais rapido possivel daquela regiao pois a metereologia previa gelo e neve.  Ele entao deu-me uma rota que inseri no GPS e tratei de seguir, eram estradas secundarias que cortavam uma area rural belissima de Ohio mas nao cheguei a curtir a paisagem pois acabou a carga do danado do GPS. Comprei um baita mapa de papel e parava de vez em quando para encontrar a rota que o Cyro ia me ditando pelo radio como se fora um controlador de trafego aereo mal-criado.   O fato e’ que, apos 288 milhas,  consegui chegar a cidade de Mansfield (Ohio) e me aboletar no primeiro Super 8 que encontrei.

No dia seguinte, segunda-feira, debaixo de muito vento e uma temperatura de 8 graus centigrados,passei num Wall Mart, comprei um isqueiro automotivo, alguns fios, fita isolante e montei uma “gambiarra” para carregar o GPS.



O unico inconveniente e’ que tinha de parar a moto para fazer isso. De qualquer forma  iniciei a perna em direcao a Beckley (West Virginia), onde cheguei apos 360 milhas em estradas principais e secundarias conforme a orientacao que recebia e apos checar o GPS que era desligado logo em seguida para poupar bateria. Na chegada em Beckley a temperatura estava a 1 grau centigrado e a previsao para a noite era de 3 graus negativos. 



Terca-feira, acordo cedo, ligo a “gambiarra” no GPS enquanto tomo café, espero ate as 10 horas para esquentar um pouco o tempo. Essa era a ultima perna e a mais problematica pois iria atravessar as montanhas, onde poderia haver gelo, e entrar na Virginia. A Estrada e’ maravilhosa, em meio a uma area preservada com paisagens de tirar o folego. O asfalto perfeito e curvas para quem gosta e sabe faze-las, modestia aa parte. 




 Por sorte o sol saiu bem forte e nao encontrei gelo, sentia-me o dono da Estrada, nenhum motociclista encontrado, curvas para a direita e para a esquerda como manda o figurino: olhos no objetivo, rotacao do motor la nas alturas, contra-esterco, peso na pedaleira do lado interno da curva e um sorriso nos labios sabendo que estava fazendo um belo trabalho. Foi assim toda a viagem ate Charlottesville, foram 750 milhas percorridas, na maior parte do tempo com temperaturas em torno de 8 graus e ventos laterais. Nao esta de todo mau para um septuagenario, hehehehehe.
Quando chego o Cyro me da a noticia: ”-Sua moto esta sem o selo de vistoria obrigatorio, temos que providenciar isto.”. Meu Deus, pensei, pagamento de Duda, agendamento de vistoria pela internet, aguardar a emissao do DUT/Recibo, etc e tal. Principalmente etc e tal.  Acho que nem dormi direito a noite, no dia seguinte, ansioso mal tomo café e fico perguntando ao Cyro se devo procurar um despachante (juro que pensei ate mesmo em constituir um advogado pois se no Brasil  era toda aquela paraphernalia, imaginem aqui !). Que nada, apos tomar café calmamente, o Cyro pegou o carro e mandou-me segui-lo ate uma oficina proxima homologada pela policia de Charlottesville, entramos, mostrei os documentos da moto, um mecanico fez a vistoria, colou o selo na moto, paguei 12 dolares e PRONTO a vistoria estava feita. Levou mais tempo o caixa fazer o troco do que a revisao propriamente. Eles tem que vir ao Brasil descobrir como se faz...





Bem, agora tenho que parar para estudar. Sim, voces entenderam corretamente, hoje na hora do almoco o Cyro e a Cristiane chegaram com um presente para mim: inscreveram-me em um curso de motociclismo do Departamento de Transito da Virginia e que comeca a amanha com a duracao de 3 dias (2 dias aulas teoricas e 1 dia aula pratica) com direito a certificado que me garante desconto no seguro da moto.

Depois conto o resultado de mais esta peripecia.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aventuras Geriatricas - 2a. Parte

Grande Mocada, 

Apos uma viagem de 24 horas, com direito a 3 conexoes, chegamos a Richmond onde o genro do Cyro, o Bob, nos esperava. Antes de partirmos para Charlottesville ainda demos uma passada no museu aeronautico de Richmond, afinal eu, o Cyro e o Bob somos  amantes de maquinas voadoras, principalmente as que fizeram historia.



Chegamos a casa do Bob e a primeira coisa que fizemos foi examinar a Goldwing Aspencade que coube ao Cyro. Confesso que a primeira impressao foi das piores:  um monte de equipamento cafonerrimos, bateria quase morta, sujeira impressionante, a impressao que tivemos foi que a moto ficou parada por meses em algum galpao. No dia seguinte, mal instalamos o carregador de bateria comecou a chover. Nao nos restou alternative senao colocar a moto na varanda da belissima casa da filha do Cyro (acho que seremos expulsos a qualquer momento).


Trabalhamos que nem uns loucos para arrancar toda a parafernalia que o velho dono havia colocado. Toneladas de fios que ligavam nada a coisa alguma foram retiradas. Plataformas que impediam engatar as marchas com precisao foram jogadas no lixo.

No dia seguinte o tempo deu uma tregua e conseguimos descobrir o afogador e ligar a bendita Goldwing.  Fumaceira descomunal, motor rateando e eu e o Cyro com cara de choro, mas um artista nao se impressiona com facilidade (como diria Cumeeira) e fomos a luta. A primeira coisa era decidir  quem daria a primeira volta. Disputamos no palitinho e como perdi fui obrigado a faze-lo. A moto estava uma bosta, rateava direto e estava sem forca nenhuma. Paramos de ver a parte estetica e de conforto e fomos para a mecanica: trocamos velas (apos retirar agua em torno das mesmas), reapertamos os cabos de vela (dois estavam frouxos), fizemos um reaperto geral na parte mecanica, regulamos o guidom e voltamos ao testdrive. Ah, agora sim parece uma motocicleta. A bichinha ate que nao faz feio mas esta longe, muitissimo longe de uma Harley Davidson touring. E’ ate sacanagem compara-las. A pilotagem e’ muito facil, a danada inclina uma barbaridade nas curvas (mesmo nas mais suaves) mas ainda assim nao faz curva como a HD Ultra. O painel, apesar de 1984, e’ digital. As suspensoes a ar, dianteira e traseira, podem ser reguladas independentemente com a moto em movimento (ela tem um compressor eletrico). O sistema de som tem um tapedeck alem de AM/FM tradicionais. A bichinha ainda tem um radio faixa do cidadao e sistema de intercomunicacao. Bem, o fato e’ que o Cyro esta com um sorriso de uma orelha a outra.


Eu, pelo meu lado, comeco amanha a epopeia para trazer a minha moto que esta em Detroit. O cara que  vendeu a minha estara me esperando na saida do aeroporto de Detroit, com uma F250 branca trazendo uma Goldwing Interstate 1986 negra  a reboque. Acho que nao e muito dificil de encontrar, nao ? Sao quase 900 Km ate Charlottesville, a ideia e’ o Cyro sair na segunda-feira e encontrar-me em algum lugar entre Detroit e Charlottesville. Se vai dar certo ?  Nao sei nem quero saber mas que vai ser maravilhoso, ah isso posso garantir. Continuem torcendo pela gente.

Ate a proxima.   

sábado, 14 de abril de 2012

AVENTURAS GERIÁTRICAS - 1a. PARTE

Amigos, parceiros, credores e cobradores, sinto informa-los que estou iniciando mais uma etapa do projeto “Torrando a herança dos filhos”.

Neste momento, como diria o nosso queridíssimo e jamais suficientemente incensado Apedeuta, estamos nos preparando para cruzar o Atlântico rumo à terra de Marlboro. Dentro de algumas horas estaremos em Charlottesville (Virginia) onde eu e meu amigo Cyro mostraremos aos gringos como dois septuagenários conseguem se equilibrar em cima de um triangulo apoiado em um dos vértices (é mais ou menos como me sinto em cima de uma moto). Lógicamente isso não vai acontecer logo de cara, primeiro temos um baita trabalho de casa para fazer mas, acreditem, vocês também iriam adorar nos ajudar na tarefa.

Indo direto ao ponto e sem fazer segredo, o trabalho que temos de realizar, antes de sair pelas estradas maravilhosas da Gringolandia, é fazer uma revisão em grande estilo de uma Honda Goldwing Aspencade 1984 e voar até Detroit para pegar outra Honda Goldwing Interstate 1986.









Como essas naves intergalácticas apareceram na história ? Fácil, o locutor que vos fala sonhou com elas quando por ocasião da Ablação/Badalação, lembram ? Sai do sono anestésico, comecei a fazer contas e cheguei a conclusão que se fosse alugar uma HD por mais de duas semanas sairia mais barato comprar uma moto velhinha (não tanto quanto eu, lógico) e na hora de voltar à república do bananão jogar a criatura Cannyon abaixo em grande estilo. Conversando com o Cyro resolvemos comprar duas motos. As HD ficaram logo fora de cogitação, dado o seu preço, no entanto queríamos motos semelhantes às nossas tourings.  Meus caros, estava difícil mas encontramos as motos. Uma delas nos remete de imediato ao grande amigo e cafeicultor (produtor do famoso Café Jacu Dourado) Pedrão Midas, a danada é DOURADA, e pertencia a um senhor com 94 anos de idade. Como ele estava mais surdo do que eu os filhos resolveram vender aS motoS do velho. Tudo bem, o cara é quase centenário mas tem classe. Observem só as fotos do sacana do velho.






A outra, uma 1986 negra como o bigode da múmia do Maranhão, está em Detroit e teremos que busca-la. O planejamento está da seguinte forma (se não mudar mais): chegaremos à Charlottesville na 3ª.feira, descansamos e na 4ª. terá início a revisão da Sabrina. Aqui abriremos um parênteses: fiquei olhando horas para as fotos da moto e o que me chamava a atenção era o volume da traseira da moto, pensei um pouco e cheguei a conclusão que a única japonesa de bunda grande que conheço é a Sabrina Sato, o batismo foi imediato, fecha parênteses. Na 5ª. ou 6ª., a depender do resultado da revisão, começamos a rodar com a moto pelas proximidades. No sábado embarco para Detroit, levando documentos e a placa debaixo do braço, e trago a moto para Charlottesville (cerca de 900 Km) via Front Royal onde o Cyro vai me aguardar com a Sabrina para voltarmos juntos pela Skyline Drive, uma maravilhosa estrada cheia de curvas que atravessa o Shenandoah National Park.






É meus amigos, torçam pela gente pois o sacana do horizonte teima em se afastar cada vez mais porém não entregamos os pontos: “quem tem medo de cara feia não amarra porongo nos tentos” (Rodrigo Severo Cambará)


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pilotagem - CURVAS: Contra-esterço - Olhar - Negociação

    Um dos maiores desafios na pilotagem de uma motocicleta é conduzi-la corretamente em curvas, sejam elas de baixa ou alta velocidade.  
Para facilitar o entendimento desse “post”, tomei como base motocicletas Harley Davidson “Custom”  rodando em estradas asfaltadas  (embora o princípio seja válido para qualquer moto) em velocidades acima de 25 km/h.  Existem vários aspectos que devem ser considerados numa curva; tais como redução de velocidade, posição do corpo, piso, etc tratados exaustivamente em outros "posts" por vários de vocês. Correndo o risco de me tornar repetitivo volto ao tema concentrando-me em três daqueles que julgo os mais importantes:
CONTRA-ESTERÇO
     Sem que saibamos o que é o contra-esterço e como ele atua corremos sérios riscos de acidentes.
Esterço é o movimento de guidon que fazemos para executar uma curva. E porque contra ? Como o próprio nome diz, para fazer uma curva para a DIREITA temos que, delicadamente, esterçar o guidon para a ESQUERDA ! Parece uma loucura mas não é, trata-se tão somente da física atuando com o chamado efeito giroscópico. Para ficar mais claro, existe um teste muito simples que pode ser feito com dois copos de vidro ou de plástico. Pegue dois copos idênticos, cujas bocas sejam maiores do que os fundos e coloque-os com as bocas encostadas uma na outra. Prenda os copos nessa posição usando fita durex ou isolante. Colocando os copos presos sobre uma superfície plana você verá que o meio é mais alto do que as extremidades tal qual o pneu dianteiro da moto. Quando a moto esta em linha reta ela vai se apoiar exatamente no meio (onde os copos estão fixados). Gire os copos para a esquerda (como se estivesse girando o guidon)  encostando  o copo da direita na mesa (a moto se apoia na lateral do pneu nas curvas), agora com a palma da mão empurre o copo que esta apoiado na mesa para a frente: embora ele esteja virado para a esquerda ele vai girar para a DIREITA !
     Como é que até hoje eu fazia as curvas com a minha moto sem perceber que estava fazendo isso ?   INSTINTO.  Pilotagem de moto é altamente instintiva e falaremos disso mais à frente. No caso do contra-esterço é fundamental que o utilizemos conscientemente  e a nosso favor, evitando situações como a experimentada por mim em meados de 2009.  Eu estava descendo a serra de Petrópolis quando, no viaduto que antecede o primeiro túnel, me vi mais rápido que minha competência permitia. Fiz quase tudo errado: toquinhos no freio da frente e tapinhas no freio traseiro de nada adiantaram, cada vez mais eu me aproximava do limite da pista. Já em pânico pensei: “-tenho que girar mais o guidon para a esquerda” , ou seja fiz exatamente o contrário pois a curva era para a esquerda e eu não sabia absolutamente nada de contra-esterço. O anjo da guarda tomou o guidon das minhas mãos e conseguiu fazer a curva. Passei a um dedo  (do Lula) da mureta do viaduto.
Se você ainda não acredita no tal de contra-esterço, pegue sua moto e vá para uma avenida larga e sem movimento e a 40 Km/h empurre a manete da direita delicadamente para a frente. A moto vai se inclinar para a direita e vai começar a curvar para o mesmo lado.

OLHAR    
A motocicleta vai para onde você olha.  Muita gente se acidenta em uma curva ao fixar o olhar no acostamento, no guard-rail, no carro ou na moto que vem em sentido contrário ou naquele que está a seu lado.
Nas fotos abaixo observe para onde está voltada a cabeça do piloto e a direção que a moto está tomando:






Na sequencia abaixo o piloto, ao fixar o olhar no carro, desistiu da curva, tirou a inclinação da moto e foi atraido para ele como se fora um imã. Bastaria tão somente olhar para o ponto de saída da curva e contra-esterçar com vontade, o espaço era suficiente para evitar o acidente








Repare que na primeira foto a moto está inclinada mas não no limite, significando que poderia contra-esterçar ainda mais. Porém, a partir do momento em que o componente OLHAR se desviou da SOLUÇÃO e passou a se fixar no PROBLEMA (o carro), o nosso amigo piloto desistiu da curva, tirou a inclinação da moto, provavelmente usou o freio de forma errada e totalmente desequilibrado em cima da moto caminhou como um boi caminha para o matadouro. Provávelmente a culpa foi atribuida aos malditos pneus Dunlop.  Abaixo o resto da sequência. Tomem a árvore como referência e reparem que o carro chegou a parar !







(fotos cortesia Killboy.com e Jim Miller Photography)


 Lembre-se, olhar para onde você quer que a moto vá é a SOLUÇÂO, olhar para obstáculos é o PROBLEMA, olhe sempre para a SOLUÇÂO, jamais para o PROBLEMA.




Seu olhar tem que ser como a luz do farol, ele não deve se fixar em nenhum ponto e sim avançar 2 ou 3 segundos à frente, para onde voce quer que a moto vá. Não desvie jamais o olhar do seu objetivo, especialmente no meio de uma curva.Quando a curva pemitir olhe para onde você quer  o seu ponto de saída.  Combinar o olhar com o contra-esterço, além de resultar em curvas redondas, reduz drasticamente os riscos de acidentes.




NEGOCIANDO A ENTRADA DA CURVA
Para aproveitar ao máximo o espaço disponível e com isso aumentar o raio da curva facilitando o seu contorno, nosso ponto de entrada é o lado externo da curva, isto é: se a curva é para a direita o ponto de entrada será o extremo esquerdo da pista de rolamento. No meio da curva está o ponto de tangência no extremo à direita. O ponto de saída, nesse caso, será no  extremo à esquerda da pista de rolamento. Desenhando num pedaço de papel fica mais fácil de entender. Sempre que possível, visualizar o ponto de tangência da curva e fazer a entrada no lado oposto ao mesmo. Isto é, se o ponto de tangência está à sua esquerda você faz a entrada de curva no limite à direita e vice-versa.

A velocidade de entrada na curva é fundamental para que ela seja feita da forma mais eficiente e segura possível. É preferível reduzir a marcha e entrar em uma velocidade mais baixa com o motor "cheio" e acelerar gradualmente a entrar numa velocidade alta e ter necessidade de reduzi-la "dentro" da curva. Na primeira situação - velocidade mais baixa - o conjunto de movimentos será harmonioso, já no segundo caso - velocidade excessiva - voce vai ter muito mais trabalho para contrariar o comportamento da moto  (mais velocidade = menos inclinação = maior dificuldade de reduzir velocidade = maior dificuldade de passar no ponto de tangência desejado).



A importancia de subir as rotações do motor antes de entrar na curva (através da redução de marcha)   é para sua utilização como "freio motor" caso necessário. Jamais use os freios dianteiro ou traseiro dentro de uma curva. Basta fechar a manete de aceleração que a moto reduzirá e inclinará ainda mais, ajudando na curva. É muito mais seguro entrar em uma curva desconhecida reduzindo para uma marcha mais baixa, com motor "esgoelando", do que entrar "solto" em uma marcha alta.


Outra providencia em curvas mais rápidas é transferir o centro de gravidade para o mais próximo do solo, para isso basta deixar de preguiça e passar o peso do corpo para a pedaleira/plataforma do lado interno da curva aliviando a bunda no banco. Nas tourings isso é um santo remédio para acabar com as pequenas reboladas.


E uma recomendação que poderá salvar sua vida: JAMAIS DESISTA DE UMA CURVA DEPOIS DE INICIADA, a partir do momento em que voce tomou sua decisão vá até o fim. Se entrou rápido demais, feche a manete de aceleração e incline a moto mantendo o olhar para o ponto de saída da curva, sem se preocupar com a pedaleira raspando no chão e, principalmente, SEM OLHAR para os obstáculos: carros em sentido contrário, guard-rails, caminhão ao seu lado, acostamento, etc...Fixe o olhar no seu objetivo e acredite que voce conseguirá.   


Existe uma forma de fazer uma frenagem de emergencia em uma curva utilizando o freio dianteiro no seu limite. Além de exigir muito treino é fundamental que a negociação da entrada da curva tenha sido feita de forma adequada. Se você perceber que a velocidade está muito além do permitido pela curva e não tiver condições de usar o freio motor, retire a inclinação da moto, colocando-a em pé com o guidom reto e aplique o freio dianteiro com vontade sem deixar a roda bloquear e antes de passar para a pista contrária, solte o freio, contra-esterce com vontade e continue na curva.  Isso parece difícil, e é, mas lembre-se que se a negociação da curva foi bem feita a perpendicular que vai do ponto de tangencia até o limite do ponto de saída lhe proporciona alguns bons metros que podem ser a diferença entre cair ou retomar a curva, agora em velocidade mais baixa.
TREINO     Não adianta encontrarmos culpados para os sustos e acidentes que sofremos, vestirmos verdadeiras armaduras medievais para pilotar se não fizermos o fundamental: praticar. É a melhor maneira de criar memória em nossos músculos e neurônios das ações que pretendemos transformar em reflexos. .

Vale a pena estabelecer um programa de treinamento com colegas, escolher um local seguro, levar uma trena, fazer marcações e começar treinando frenagens de emergencia, primeiro a 40 km/h , depois a 60 km/h e assim sucessivamente. Garanto que muitos de nós ainda não vimos o pneu dianteiro de nossas motos bloquearem. É melhor descobrir em treinamentos e saber como proceder do que numa situação real. Até mesmo frenagens de mergencia em curvas podem e devem ser praticadas , utilize um local sem transito e simule curvas com frenagens no meio e continuação da curva, primeiro em velocidades baixas 40, 50 Km/h. Depois em estradas sem movimento, simule a 70/ 80 km/h. Garanto que os dividendos valem a pena.


Hélio Rodrigues Silva   22/11/2010

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Tail of the Dragon - 3a. parte

Cheguei a Deal’s Gap por volta das 11 h e decidi descansar por 1 a 2 horas antes de fazer o circuito. Ainda que tenha atravessado o Smoky Mountain National Park com o dia ensolarado, em meio a uma paisagem belíssima, apressei o passo para poder dedicar mais tempo ao Rabo do Dragão. Convenham que é muito difícil resistir a essas paisagens sem paradas para fotos:


















O  "Tail of the Dragon" fica na US-129, em um trecho de 11 milhas que liga a Carolina do Norte ao Tenessee. Este nome foi adotado devido à quantidade (318) e ao formato das curvas, semelhantes ao serrilhado do rabo de um dragão.  Pelo gráu de dificuldade  das curvas tornou-se um "point" para os motociclistas da região e logo ganhou fama internacional, atraindo motociclistas e turistas de todas as partes do mundo. Vale ressaltar que toda a região tem estradas sensacionais para os amantes do motociclismo e vale a pena prolongar a estada para curti-las.   



 A estrada é de uma única e estreita pista de mão dupla, sem acostamento. As curvas variam mas em sua grande maioria são de raio fechado, algumas em cotovelo, tanto em aclive como em declive. Na maioria dos trechos existem barrancos de um lado e grotões do outro, sem nenhum guard-rail ou mureta de proteção. Árvores de ambos os lados, em determinadas épocas do ano, coalham o chão de folhas que podem prejudicar a aderência dos pneus, especialmente de motos. Tudo isso com o transito aberto a automóveis, moto-homes, caminhões e carretas. O fato é que muitos loucos vão para lá com suas motos e carros esportivos (Corvette, Jaguar, Ferrari, Porsche, etc) com o único objetivo de fazer o trecho no menor tempo possível (existe até um ranking clandestino, segundo soube).  Muitos já perderam a vida ali, existe a relação no site oficial  www.tailofthedragon.com






Enquanto descansava circulando pelo imenso estacionamento que abrangia hotel, posto de gasolina, restaurante e loja de souvenir, observava o burburinho e a agitação que denunciavam a carga de adrenalina presente.












Uma coisa que me chamou a atenção foi a forma como cada motociclista, ou grupo de motociclistas, iniciava o circuito. Eles aguardavam de 2 a 3 minutos quem largou na frente se distanciar antes deles mesmo partirem. Comecei a bolar uma estratégia para fazer a minha passagem. Eusabia da quantidade de curvas, com poucas e curtíssimas retas e que fortes reduções e acelerações seriam uma constante. Optei por utilizar apenas 3 marchas para fazer o circuito, na realidade apenas a 2ª e a 3ª. Buscava com isso reduzir ao mínimo a necessidade de utilizar os freios. A idéia era acelerar nas saídas de curva,jogar uma 3ª. quando possível e nas entradas das curvas reduzir para 2ª. Quando o raio da curva fosse muito fechado, bastaria fechar o punho reduzindo a velocidade para que a moto inclinasse de forma a tangenciar o lado interno da curva. Ao ver o ponto de saída acelerar e tirar a moto da inclinação. Tudo isso usando o contra-esterço,mantendo o foco, sem distrações, olhando para onde quero que a moto vá erespirando corretamente.
Ainda assim adotei uma estratégia bem conservadora, iria andar a uma velocidade que não atrapalhasse ninguém mas também sem bancar o Giacomo Agostini (esse é da minha época) pois estava sozinho, longe de casa e se caio num grotão o risco de ninguém me ver é grande. Atento aos retrovisores, era hora de colocar em prática a estratégia e colher os dividendos das horas de aulas e treinamentos com o meu amigo Cyro França. Devo dizer que foi mais fácil do que imaginava. O momento mais tenso foi exatamente na saída, com todos os olhares (pelo menos é o que imaginamos)  se concentrando em mim e na Angelina mas assim que entramos na estrada tudo ficou mais tranqüilo. Não havia carros nem motos à minha frente, a decisão de utilizar apenas 3 marchas se mostrou acertada facilitando e tornando mais segura a pilotagem. À medida em que as curvas iam sendo vencidas a adrenalina era substituída pela alegria de estar realizando um sonho. Após algum tempo vi um “overlook” com várias motos e carros parados. Curioso parei e fui recompensado. Era uma vista maravilhosa: a represa Calderwood Dam formando o lago do mesmo nome.   




















Após alguns minutos contemplando a belíssima paisagem, baterias devidamente recarregadas, continuamos nosso circuito. Desse ponto em diante, o “Rabo do Dragão” vai ficando mais civilizado e termina quando encontra a State Highway 115. Fiz e o retorno e com os mesmos cuidados da vinda voltei para Deal’s Gap. Parei para comer algo pois a fome chegou avassaladora. O restaurante fica lotado de motociclistas, todos com suas traquitanas eletrônicas (I-pods, GPS, etc). Como eu já tinha sido avisado da previsão de neve nas montanhas aproveitei, enquanto não chegava a comida, para traçar um roteiro de volta. Liguei meu note-book e abri um imenso mapa em cima da mesa. Fez-se um silencia absoluto nas mesas em volta da minha, acho mesmo que ouvi um “-Ohhhhhh”. Os gringos olhavam espantados para mim, para meu mapa e para o note-book, acho que esperavam que eu sacasse um sextante a qualquer momento. Foi muito engraçado.



Com a ajuda do mapa e do note-book tracei um caminho de volta. Inúmeras anotações foram feitas no mapa, sempre sob o olhar espantados dos gringos e eu rindo por dentro.  A única coisa que me incomodava é que não havia feito fotos no meio do “Rabo do Dragão”, principalmente pilotando a Angelina. De repente, vejo uma propaganda do site www.killboy.com e lembrei-me de que o Cyro já havia me falado sobre eles. Procurei um cara com a camisa deles e fui informado que eles tinham fotógrafos em alguns pontos do circuito que colhiam flagrantes e colocavam os melhores para venda através do site. Bastava eu saber o dia e hora aproximada que fiz o circuito. Dei sorte, os caras fizeram uma sequência de 4 fotos em uma das curvas:







  






Essa sequência de fotos deixou-me feliz por dois motivos: em primeiro lugar por registrar minha passagem pelo Tail of the Dragon. Em segundo por mostrar que os ensinamentos não foram em vão pois desde a primeira foto, onde estou saindo de uma curva e prestes a entrar na segunda, percebe-se a trajetória correta e o olhar para o ponto de tangência da curva seguinte. Na segunda foto, a moto exatamente no ponto de tangência e o olhar no ponto de saída. A terceira foto mostra a moto já começando a sair da inclinação em direção à próxima curva. A última foto mostra a moto em direção ao ponto de entrada da curva seguinte, que era para a direita. Acho que, sem querer,  ficou didático. 
Quando terminei o “Rabo da Lagartixa”  (a essas alturas me permiti uma certa intimidade com o Tail of the Dragon) peguei o caminho de volta abandonando a maravilhosa Blue  Ridge Parkway além de evitar o caminho mais curto, a US81. Por causa da ameaça de neve numa e pelo transito pesado na outra. Optei pela US29 que fui encontrar lá em Gransboro, depois de seguir a US40.  Tudo isso dicas de  uma equipe de retaguarda que cuidou de mim como verdadeiros anjos da guarda, avisando-me sobre o tempo, sugerindo roteiros, reservando hotéis e, principalmente, torcendo e vibrando com minhas conquistas. Ouso dizer que formamos um time, e que time ! Cristiane, Bob e seus dois filhos: Tatiane e Jonatah além do meu mestre e incentivador, Comandante Cyro França. Não posso esquecer de Bear e Gus, que me receberam com saltos e latidos de pura alegria quando retornei à linda Charlottesville. Jamais vou conseguir externar toda minha gratidão.