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quarta-feira, 23 de maio de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 6a. parte


Grande mocada, acabou o recreio. Enquanto estavamos trabalhando duro para dar condicoes minimas de seguranca para que as Goldwings encarassem uma Estrada, faziamos pequenas incursoes por cidades proximas a Charlottesville, tais com Orange, Staunton, Winesboro, Richmond e outras menos votadas para testar nossas modificacoes e verificar o grau de confiabilidade das maquinas. A unica viagem, ate entao, foi a minha trazendo a moto de Detroit, por sinal com serios problemas de freio. Foi uma luta trazer a danada com o disco dianteiro esquerdo arrastando por 750 milhas. Alias freio e’ um assunto em que ficamos doutores, principalmente no que se refere `a Goldwing. Como todo motociclista sabe, quando o freio bloqueia roda traseira a acao a ser tomada e’ manter o freio bloqueado, ja’ quando o freio bloqueia a roda dianteira, a acao e’ inversa, ou seja solte o freio e volte a pressiona-lo em seguida. Se voce tem um pedal que aciona o freio traseiro e o freio dianteiro (o disco da direita) simultaneamente, como e’ que vocefaz  para segurar um e liberar outro ?  Os japoneses, querendo auxiliar a grande maioria que nao sabe utilizar os freios, criaram o pior dos mundos  ja’ que na epoca nao existia o ABS. Bem mas esse e’ um assunto chato, o fato e’ que trabalhamos como uns condenados mas as motos ficaram razoavelmente seguras mas obrigando-nos, em contrapartida, a adotar algumas acoes que minimizam os riscos, por exemplo: aumentar a distancia para os veiculos `a frente, abusar de usar a reducao de marchas e outras manobras que tem nos mantido incolumes.


Nessas andancas por perto participamos de 2 encontros de HD, um em Orange e outro em Staunton. Neste ultimo havia um lanche (barbecue with iced tea) que custava 5 dolares. Ao chegar perguntei `a gerente da Harley se havia alguma ”ATM machine” poise eu precisava de grana ara pagar o tal de churrasco. Ela me pediu desculpas por nao ter a tal maquina cuspidora de dinheiro e pediu-me para aguardar. Foi ate o escritorio e voltou de la com uma nota de 10 dolares como cortesia da HD. Quando fui la for a dar a noticia ao Cyro ele estava com um mecanico da Harley (que falava ao telephone) ao lado de sua Goldwing. Nao e’ que ele foi pedir uma “dica” de como soltar a roda da moto e o mecanico, apos olhar, ligou para uma concessionaria Honda (em outra cidade) para confirmar !  Ali eu tive a certeza de que estava no primeiro mundo.
















Em Orange a recepcao nao foi menos amistosa. Apos uma curta mas emocionante viagem por uma estradinha cheia de curvas e passando por inumeras propriedades rurais, onde o risco de um trator, ou um cavalo surgir `a sua frente e’ consideravel, chegamos ao dealer da HD. O proprio dono nos recebeu, um senhor de uns 80 anos mas entusiasta e praticante do motociclismo. Deu-nos inumeras dicas para as viagens e convidou-nos para um evento anual da concessionaria (em junho) onde a policia fara um mini-rodeio com seus competidores. Vou tentar inscrever o Cyro sem ele saber e depois digo que sou o instructor dele, hehehehehehe.














Semana passada, com tudo pronto para largarmos, o motor de arranque da moto do Cyro pifa. Nao vou entrar em detalhes mas conseguimos resolver com o auxilio de um velho corredor de motos que matou a charada e nos deu um solenoide usado que trocamos e o arranque ressuscitou.  Logo resolvemos botar o pe’ na Estrada pois estavamos desconfiados que tudo isso era frescura das motos. O fato e’ que domingo, por volta das 11 horas partimos celeres para a Blue Ridge Parkway e suas promessas de aventura.  Foi entrar na Estrada e o desempenho das motos comeca a melhorar.












O  sol que nos obrigava a pilotar em mangas de camisa. O Cyro ofereceu-me bloqueador solar mas eu desdenhei: “-Quem pega o sol de Cabo Frio nao tem medo desse solzinho daqui.”  `A noite arrependi-me amargamente disso. Torrado como um camarao e um principio de desidratacao (alem do mais, como todo velho, nao tenho sede). Quando paramos no hotel em Roanoke so quis saber de dormir. No dia seguinte, ja melhor e levando duas garrafas de Gatorade, apontamos a proa das maquinas em direcao a Blowing Rock, nossa proxima etapa, e partimos com receio da chuva anunciada para a tarde.  As paisagens se sucediam de uma maneira que e’ impossivel cair na monotonia, por outro lado, a confraria dos motociclistas e’ incrivel, todos fazem questao de se cumprimentar e se auxiliar, nao importa a marca, o modelo e o valor da moto pois antes de mais nada sao todos motociclistas.















Como nossas paradas sao frequentes, para esticar as pernas e para tirar agua do joelho (em consequencia da idade, da pessima ergonomia das Goldwings e do remedio para hipertensao), acabamos por prejudicar nossa media horaria, e nesse momento, o meu amigo Cyro esquece o valor das multas e a nossa idade e enrosca o punho com vontade, naturalmente que tenho que fazer o mesmo para nao perder o cara de vista. ‘E um tanto arriscado mas lindo de se ver : duas Wings riscando o piso imaculado da Blue Ridge Parkway com as bracadeiras do escapamento, ainda por cima pilotadas por dois velhos que se comportam como dois adolescentes com pouco siso como se dizia antigamente, hoje seria:  “dois velhos com bosta na cabeca”.












Verdade seja dita, conseguimos chegar a Blowing Rock num horario decente e a chuva so nos pegou ja’ no estacionamento do hotel.
Apos o jantar estudamos o percurso de hoje (22/05/2012) e chegamos a conclusao que pegariamos chuva na parte mais alta da Estrada se saissemos tarde. Nao tinhamos muito o que fazer. Saimos o mais cedo possivel para passer antes da chuva mas consertos na Estrada atrasaram-nos bastante, alem disso paramos para almocar em um restaurante mexicano com aquelas musicas de “mariaches”, aquilo da’ um sono desgracado.












Acabamos por sair tarde mas foi bom por termos a oportunidade de ver algo de que jamais me esquecerei. Estavamos parados para mais uma sessao de alongamento e xixizamento quando param duas motos: uma Honda speed e uma Touring, se nao me engano Yamaha com um casal de coroas (mas bem coroas mesmo, assim como como nos ). A senhora pilotava a Honda (linda a moto com motor em V), apos nos indicar onde parar para almocar montaram na moto e sairam. Nos saimos imediatamente atras. So’ pela maneira como a coroa saiu pedi a Deus que o Cyro nao tentasse segui-la pois a velha filadaputa tocava uma barbaridade e o velho pancudo nao ficava para tras (esqueci de dizer que o coroa tinha uma barriga momesca). Qual o que, o Cyro saiu que nem um alucinado e eu tentando acompanha-los, a estrada  naquele trecho lembra muito a Av. Niemeyer mas a velha estava possuida, voce nao via luz de freio em nenhum momento, ela sabia o que estava fazendo com aquela moto. Para mim era coisa de profissional. Depois de duas ou tres curvas em que tive a sensacao de ouvir o Ayrton Senna conversando  com o Elvis Presley sobre a importancia do rock na velocidade  entreguei os pontos: “-A velha e’ melhor do que eu e ela que va’ para o diabo que a carregue com sua moto e com aquele pancudo gay”. Claro que o cara nao era gay mas naquele momento me fez um bem enorme calunia-lo. O Cyro, nao sei se pensou o mesmo ou ficou preocupado comigo, tambem voltou ao ritmo normal. Entendam que ritmo normal nao  e’ daqueles que ficam murrinhando nao, andamos numa velocidade acima da media da turma daqui, principalmente nas curvas mas a velha era o bicho. Mais a frente voltamos a encontra-los (ambos com um sorriso zombeteiro) e ela falou para o Cyro que sua vida era em cima de uma moto viajando. Despedimo-nos e tomamos nosso rumo com auto-estima um pouco avariada mas fazer o que ? O raio da velha pilota pra cacete e nao posso fazer nada a respeito disso, apenas reconhecer e reverenciar uma verdadeira virtuose.
Por tudo isso encontramos a chuva no caminho e quanto mais subiamos mais ela piorava e a temperatura caia pois estavamos  atravessando nuvens. Passamos a tomar muito cuidado com as condicoes da Estrada pois neste trecho os tuneis se sucedem e as condicoes de entrada e saida deles variam enormemente. 








Quando comecamos a descer, ja’ proximos a nosso destino, a chuva parou e assim chegamos a Cherokee, ponto de partida para inumeras opcoes que ainda estamos avaliando. Quando o Cyro mencionou o Tail of the Dragon juro que pensei na velha me ultrapassando miseravelmente na curva mais dificil. So’ me resta dormir e sonhar que estou atirando com uma 12 nos pneus daquela Honda com motor em V.
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