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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

AS 15 MELHORES ROTAS DOS USA - 12

DAS VANTAGENS DE VIAJAR SÓZINHO....
Hardin (MT) - Spearfish (SD) - 20 julho 2014

Uma das vantagens de viajar sozinho é que você não precisa se preocupar em agradar ou desagradar alguém. Não existe coisa mais decepcionante do que você estar curtindo um local, uma paisagem, uma viagem e ter alguém do seu lado de cara amarrada, como se estivesse pensando "-Se soubesse que era esta merda não teria vindo!". Prometi a mim mesmo jamais ver ou ouvir isso. Além do mais, a convivência durante a viagem traz um desgaste natural, e o que era motivo de risada no início no final é um pé para uma discussão.
Tudo isso para dizer que, saindo tarde de Hardin (MT), a ideia era tocar direto para Spearfish pois quanto mais demorasse debaixo da fornalha, maior seria meu desgaste. Peguei a 212 para fugir da Highway I-90 mas logo no início vejo uma placa com um nome que me fez esquecer tudo: "Little Bighorn Battlefield National Monument". Meus amigos, ali, em 25 de junho de 1876, os Lakota, Cheyenne e Arapaho, liderados pelos lendários Touro Sentado e Crazy Horse deram uma surra no Sétimo de Cavalaria sob o comando do não menos famoso Tenente-Coronel Custer. Foi um verdadeiro massacre onde 263 homens brancos encontraram a morte, entre eles o próprio Custer.
Ironicamente, Custer era famoso pela sua sorte (Custer Luck). Em batalhas na guerra civil, nada menos do que 11 de seus cavalos foram atingidos e mortos e ele teve apenas um arranhão de um estilhaço de granada dos Confederados.



O local está preservado e, em cada sítio onde ocorreram batalhas, existem quadros e depoimentos de combatentes de ambos os lados. Nos locais onde soldados tombaram existe uma lápide branca marcando o local. O mesmo acontece onde índios (poucos) tombaram, com  diferença na coloração da lápide e, no caso dos índios, elas tem o nome do guerreiro.











Existe também um cemitério, o Custer National Cemetery, onde estão sepultados os soldados do 7o. de Cavalaria e veteranos das Forças Armadas Americanas.



O Visitor Center tem um auditório onde são exibidos filmes sobre a batalha, salas onde estão expostos uniformes, armas, vestimentas e fotos da época. E, como não poderia deixar de ser, uma loja vendendo camisas, lembranças e uma série de itens ligados ao tema. Os Rangers, que cuidam da área, também fazem palestras sobre a batalha e é muito comum ver professores conduzindo suas turmas para assisti-las.







Investi 2 horas de minha vida e não me arrependo. Fale quem quiser e o que desejar mas cada um enxerga de uma forma. Desligar a Helô no alto de uma daquelas ravinas, sozinho,  apenas o vento embalando meus pensamentos !  Não há dinheiro que pague.....


Por essas e outras é que prefiro viajar sozinho, isso sem falar nos perigos de andar em um "bonde" de motocicletas. Não digo que não o farei, até mesmo porque estou me dirigindo a Chicago para fazer exatamente isso: incorporar-me ao "bonde" do Comichão Custom Club de Brasília, convidado pelo meu sobrinho, e voltar a Sturgis com essa uma turma maravilhosa.  Afinal esses caras, que nunca tinham me visto na vida, foram a Luziânia (a 60 km de Brasília) me receber e me escoltar até Brasília, onde fui alvo de uma recepção que jamais tive em minha própria cidade. Nem mesmo quando voltamos de Ushuaia (Patagônia) com 5 membros de um mesmo moto-clube.  Essa é a diferença entre motociclistas e fanfarrões.


AS SURPRESAS QUE A ESTRADA NOS RESERVA
Spearfish (SD) - Murdo (SD) - 21 julho 2014

Hoje sai de Spearfish SD) disposto  a chegar cedo em Murdo (SD). Peguei logo a tal de I-90, uma Hwy com velocidade máxima de 75 milhas por hora mas que, com meus ajustes e arredondamentos, pode chegar aos 85. Claro que até você ganhar uma multa mas não sejamos pessimistas. O fato é que nada iria me deter, hoje eu chego cedo ao hotel e ainda pego uma piscina. Se bobear ainda encontro uma enfermeira sueca se bronzeando de top-less (mas isso já era efeito do sol cozinhando os miolos dentro do capacete). De qualquer forma eu ia bem. Rodei 110 milhas no talo sem parar até encontrar um posto. Água do joelho esgotada, tanque cheio e lá fui eu para mais uma  etapa. Estava indo bem até que ouço um barulho estranho e paro no acostamento: uma braçadeira da ponteira do escapamento estava frouxa. Bem, fazer o quê a não ser procurar uma sombra, deixar esfriar e apertar essa goiaba. Segui procurando um local e vejo uma baita placa: " WALL DRUG STORE, America's Favorite Roadside Attraction! Next Exit".   Claro que fui de ponta-cabeça. Foi muito fácil achar a Wall Drug Store. Na realidade é uma espécie de rua com várias lojas: sorveteria, restaurante, sapataria, lembranças, etc... 



Pelo lado de fora são lojas separadas mas pelo lado de dentro são todas interligadas no que mais parece ser uma sucursal da torre de babel. 




Uma loucura total.  Fiquei meio tonto e fui para um balcão e pedi um shake qualquer. Fiquei procurando uma mesa vaga quando um senhor indicou uma mesa ao lado da sua (tinham 3 xícaras usadas). Sentei-me e daí a pouco chegaram duas  mulheres e um garoto. Era a esposa, a filha e o neto do cara. Acabamos nos acomodando nas duas mesas e começamos um papo. Quando ele soube da minha viagem, por onde eu tinha passado e perguntou-me se eu conhecia o Kansas. Respondi que apenas uma cidade, Iola, o resto foi apenas estrada. Aí começam as coincidências, ele perguntou por que escolhi a cidade para visitar. Expliquei que minha esposa e minha neta se chamam Iola e que brincava com minha esposa, quando viva, que um dia iríamos ao Kansas conhecer a cidade. Na realidade fui cumprir uma promessa. Eles ficaram muito interessados pois o John (o nome dele), nasceu numa cidadezinha ao lado de Iola. Nisso o papo foi se alongando, falei de filhos, de netas e que estava indo na direção de Milwaukee para encontrar uma turma do Brasil que chegaria na semana seguinte. Ele perguntou-me então por que não ir à feira aeronáutica de Oshkosh, uma das mais antigas e famosas feiras aeronáuticas do mundo. Hotéis lotados e as casas de família que alugam quartos com preços acima do razoável, respondi. Aí veio a surpresa, ele mora em Appleton (WI) a 8 milhas de Oshkosh e convidou-me para ficar na casa dele. Eu não sabia o que perguntar com medo de melindra-los mas parece que a esposa dele adivinhou meus pensamentos e falou: "Fique tranquilo, você é nosso convidado, nós alugamos quartos para outras pessoas mas você não, você será nosso hóspede". Meus amigos, eu não sabia o que dizer e fazer, ainda por cima ele me deu um cartão para fazer o desjejum no Rotary Club nos 4 dias da feira. Coisas da estrada, coisas de motoqueiro. Só falta virar realidade. Aguardemos.



A CHUVA ATRAPALHANDO MEUS PLANOS

Murdo (SD) - Sioux Falls (SD) - 22 de julho 2014

Ontem, depois da longa parada no Wall Drug Store, acabei chegando mais tarde do que o planejado em Murdo. Ano passado parei aqui para abastecer a Helô e descobri um museu automobilístico com mais de 300 exemplares, entre eles uma Harley Davidson do Elvis, um Packard do Tom Mix e uma infinidade de veículos históricos. Isso me tomou mais de 2 horas na ocasião.  A cidade é muito pequena mas tem vários hotéis e na frente de cada um deles tinha um carro antigo fazendo propaganda do museu.





Desta vez planejei acordar cedo e visitar o museu com calma mas, mais uma vez, meus planos foram por água abaixo, literalmente. Durante a noite desabou um temporal para paulista nenhum botar defeito. Pela manhã a chuva continuava, aquela chuvinha fina mas constante sem nenhuma trégua. Achei melhor pegar logo a estrada e já saí do quarto todo paramentado. Coloquei a tralha na moto e passei no posto para abastecer, onde tinham  4 ou 5 motos com seus respectivos pilotos aguardando uma melhoria no tempo. Acho que os caras conheciam a região melhor do que eu, foi pegar a estrada e sentir a dificuldade de manter a Helô em linha reta. Por sorte a chuva da noite lavou a estrada e por esse lado eu não tinha com o que me preocupar. O problema era o vento de través e os caminhões, que além de formar um spray denso (e tenso)  deixavam uma turbulência que nos sacudia um bocado. Segui a umas 60 milhas, colocando ao máximo o peso do corpo nas plataformas para baixar o centro de gravidade, mas a verdade é que nessa brincadeira você acaba se acostumando. Claro que a atenção passa a ser redobrada, nenhuma olhada na paisagem, nada de movimentos bruscos, faróis auxiliares ligados e tudo o que for possível para aumentar a segurança. Pilotei assim por mais de 40 minutos, depois a chuva foi diminuindo até parar.  Consegui adiantar a viagem, em relação aos caras que ficaram parados, mas isso me desgastou bastante. Eu já não havia dormindo bem à noite (além da chuva, raios e trovões) e com isso, pela segunda vez pilotando uma moto, senti um sono quase invencível.  Parei em um posto de gasolina, fui para um estacionamento nos fundos, tirei o capacete, encostei-me na bagagem, que ia no banco traseiro, e tirei um cochilo de uns 15 a 20 minutos. Foi o suficiente. Consegui chegar em segurança a Sioux Falls, onde duas enormes camas e um dia de folga me aguardavam.


Sioux Falls 23  julho 2014

Meu dia de folga não foi o que eu merecia. A primeira coisa que fiz foi dar uma assistência à Helô. Primeiro levei-a na Harley Davidson para trocar óleo e filtro. Aproveitei e troquei a braçadeira do escapamento que deixava a ponteira solta.
Saindo da Harley, bem ao lado, uma concessionária Indian. A curiosidade levou-me a entrar e conhecer de perto as tão faladas motos. Logo na entrada uma Victory, aquelas que tem a traseira parecendo uma Tanajura, ao lado de uma Indian que também imitava aquela coisa horrível. Já do lado de dentro, muitas motos lindas. Gostei muito do estilão da Indian.















Quando estou voltando o GPS para de funcionar, a tomada que tenho na moto pifou. Voltei para o hotel, coloquei a Helô à sombra de uma bela árvore e comecei a mexer em algo que detesto em automóveis, motos e em casa: sistema elétrico. Fiz uma série de testes antes de sair desmontando tudo mas o veredicto dizia que era fusível. Aí não teve alternativa, retirar bagageiro lateral, suporte de ferramentas, abrir a tampa lateral e chegar à caixa de fusíveis. Realmente um fusível de 10 ampéres estava queimado. Peguei um "spare", coloquei-o e pronto. Tudo em cima de novo. Aproveitei para retirar o acabamento que esconde a bateria e refiz a ligação do voltímetro que estava desligado, agora voltei a ter informações sobre estado e carga da bateria, temperatura ambiente e relógio de horas (só que não sei acerta-lo ainda).  Valeu a pena, afinal é essa fiel e nobre companheira que me conduz em segurança pelas estradas da vida. Grande Helô, eu amo você, minha rainha das estradas !!!!


UMA VIAGEM DE COXINHA

Sioux Falls (SD) - Burnsville (MI) - 24 julho 2014

Sai de Sioux Falls cedo e preparei-me para fazer o desjejum à moda Gato Gansado. O negócio é simples, ao mesmo tempo gratificante e é colocado em prática quando o hotel não tem desjejum, como foi o caso.  Eu paro no primeiro posto de gasolina e abasteço a moto, na loja de conveniência compro uma fruta (banana ou maçã), um sanduíche natural, suco de maçã ou de laranja, barras de cereais, coloco tudo na moto e vou em frente. Por que não como lá mesmo ?  Dois motivos: não tem lugar para sentar e o os gringos não gostam que você coma lá dentro.  Quando vou por estradas secundárias (a maioria das vezes) procuro a sombra de uma árvore, encosto a moto e faço meu desjejum tranquilamente mas hoje eu estava na I-90, onde não há possibilidade de você parar fora da estrada mas existe uma excelente alternativa que sempre uso, as chamadas "Rest Areas". São áreas de descanso, como diz o nome mas um pouco mais do que isso. Além de estacionamento, banheiros limpos, água gelada e máquinas de venda de refrigerantes, tem uma área de pic-nic com mesas e bancos de concreto, na sombra, geralmente com um belo gramado e, se você tiver sorte, o canto de um pássaro lhe dando bom-dia. Sentei-me à sombra de uma árvore e com a calma dos mineiros saboreei cada segundo daquela refeição, dei a sorte de aparecer um pássaro mas quando ele ia cantar alguma coisa interessante, um velho, sendo puxado por um cachorrão enorme, espantou o bichinho. Velho é foda !





Aproveitei também para esclarecer uma dúvida antiga, desde minha primeira viagem de moto nos USA em 2010. De vez em quando eu estava cruzando uma estrada e lá aparecia a placa "Purple Hart Memorial Highway".  Atravessava para outro estado e surgia novamente a placa. Nessas últimas viagens já vi essa placa em vários estados e ali, na "Rest Area" tinha uma baita placa explicando o motivo. A "Purple Heart Medal",  a mais antiga condecoração militar americana, é concedida a militares das Forças Armadas Americanas, mortos ou feridos em combate. A Purple Heart Memorial Highway foi criada em 1992 para ser uma estrada simbólica através dos 50 estados e territórios americanos em homenagem a todos os homens e mulheres mortos ou feridos em combate servindo às Forças Armadas Americanas. Assim, a I-90 no caso, é um segmento dessa Highway no trecho que ela atravessa Minnesota.



Na hora de ir embora, encontrei um americano, o Chad, que estava fazendo o caminho inverso ao meu. Ele estava com uma Kawasaki 1.000 (4 carburadores, céus !) e quando falei para onde ia ele me deu umas dicas excelentes para fugir das grandes Hwy. Acabamos batendo um longo papo, trocamos e-mails e ele ficou de me escrever.



No mais foi uma viagem tranquila sem grandes novidades e muito menos emoções. O que às vezes é necessário para baixar o nível da adrenalina.


EM CASO DE DE DÚVIDA PEGUE A US-61 E SIGA O MISSISSIPPI !

Burnsville (MI) - Westby (WI) - 25 julho 2014

Ontem, na conversa que tive com o Chad na Rest Area, ele me deu tantas indicações de roteiros para fugir das grandes Highways que fiquei mei confuso, e ele percebeu (quando tento fazer cara de inteligente a ignorância salta aos olhos). Então, para resumir, ele me disse em inglês o que traduzi para: "em caso de dúvida pegue a US-61 e siga o Mississippi". Adorei a frase, parece nome de filme do famoso "bacalhau" (Randolph Scott). Apenas um detalhe, esqueci de perguntar em que direção mas, sejamos francos, seguir o Mississippi em qualquer direção é como sexo, pode não ter sido uma maravilha mas sempre vale a pena.
Deixando a religião de lado prossigamos. Até pegar a 61 atravessei várias fazendas, rodando umas 45 milhas. O tempo todo atravessando plantações de milho, às vezes um povoado mínimo (mas com belas casas) da gente que trabalha naquelas lavouras. 




O tempo todo da viagem pelo centro-oeste americano, centenas e centenas de milhas, foi atravessando   lavouras de todos os tipos: milho, amendoim, girassol e outras que não consegui identificar.  Todas altamente mecanizadas (e acredito que informatizadas) usando fontes de energia alternativas (eólica ou solar) e com uma infra-estrutura de rodovias, ferrovias e hidrovias que facilita tremendamente o escoamento da produção. Ainda assim no Brasil, com todas suas limitações e dificuldades, o agro-negócio consegue competir e, na maioria das vezes, vencer essa potência. Claro que existem os fatores climáticos, etc.. mas a luta deve ser tremenda. Para atrapalhar ainda temos um grupo de "eco-tontos", especialistas no Código Florestal sem jamais ter lido uma linha sequer,  que não tem a menor noção do que seja o movimento "Farms here, forest there".  Perdoem a ousadia de entrar no tema, mal consigo me equilibrar em cima da Helô e estou deitando falação sobre agricultura. Que velho atrevido, direis....
Voltemos ao assunto: encontrei a US-61 numa pequena cidade chamada Red Wing (MN) em homenagem a um chefe índio da tribo Sioux. A cidade tem cerca de 15.000 habitantes (considerada média para o padrões da região) e é daquelas que dá vontade de parar e passar o dia andando. Fica às margens do Mississippi, as construções antigas de tijolos vermelhos, nas ruas vasos de plantas naturais pendem dos postes como que saudando os passantes, principalmente um velho motoqueiro empoeirado e marcado pelas estradas da vida. Muito bonita a cidade do chefe Red Wing.






A 61 não tenho muito o que falar, posso resumir da seguinte forma: pensem numa estrada com o piso excelente, margeando fielmente o Mississippi que está à sua esquerda, acompanhando todas as suas curvas mas sem deixar, quando preciso, de subir ou descer de acordo com a topografia da Richard J. Dorer Forest que está à sua direita. De vez em quando uma marina coalhada de lanchas e veleiros ou pequenos remansos formadas por uma curva preguiçosa do Mississippi. Uma estrada para motociclista nenhum botar defeito.








E foi assim, bailando com a Helô numa bela estrada, que chegamos a nosso destino, uma cidade chamada Westby no Wisconsin.



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