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sexta-feira, 5 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 18

FISCAL – ANDORRA

5 junho 2015

Ontem à noite Fiscal, um pequeno burgo que vira estação de Sky no inverno e agora no verão acolhe montanhistas, mochileiros e motards, começou a se despedir de mim com um belíssimo por de sol.


Mais tarde despencou um pé d’agua que durou toda a noite me deixando preocupado para o dia de hoje. Acordei cedo, sem chuva mas com nuvens baixas e preparei-me para o que viesse e desse.
A primeira tarefa: brigar com o GPS. Ele insiste em me mandar para uma estrada que dará uma volta de uns 500 Kms, enquanto estou a 240 Km de Andorra pela 260. O remédio foi ir “setando”  o viadinho para a próxima cidade, a cada uma que eu passava.
A saída de Fiscal, pela 260, inicia a subida de uma serrinha em uma estrada asfaltada (bom o piso) porém estreita. Mal passam dois automóveis e é comum encontrar tratores e caminhões. Pilotagem cuidadosa,  muita atenção no que vem pela frente, sem descuidar dos retrovisores e sem jamais esquecer que você está na Cataluña, onde os caras bebem vinho no café da manhã !
A viagem ia transcorrendo muito bem, algumas paradas para fotos, belas paisagens nos envolvendo e muitas, mas muitas motos aparecendo junto com o sol que veio nos espiar pelas beiradas das nuvens que iniciaram uma retirada lenta e gradual.






O “maçarico” estava sendo ligado e isso recomendava uma parada, extração de “água joelhal”, além de tirar toda aquela indumentária que nos deixa com cheiro de xulé.
Parei à sombra de umas árvores ao lado de um pequeno bistrô. Duas motos chegaram e, ao invés de parar perto de mim na sombra, fizeram questão de parar distante e no sol. Tirei foto para aqueles que acham que exagero. 

Engraçado isso, os motards daqui, embora mais formais que os brasileiros, sempre nos cumprimentam quando cruzamos ou nos ultrapassam (tirando o pé direito da plataforma e dando uma pedalada à La Valentino Rossi no momento da ultrapassagem). Mas tem uma turminha, por coincidência a maioria com a mesma marca de moto, que simplesmente se recusa a faze-lo. Penso que devem ser motos de difícil condução e eles não conseguem tirar a mão da manete.
Parei bastante para tirar fotos de conjuntos de construções medievais que foram reaproveitados, restaurados e integrados às pequenas vilas e burgos.







Quando a 260 ficou mais larga e as curvas menos acentuadas, a velocidade máxima subiu para 90 Km mas era desrespeitada por todos, se falarmos em 110 – 120 estaremos mais próximos da realidade. E, claro, eu me mantive no mesmo ritmo dos demais para não atrapalhar. Foi quando passei por um grande susto. Estava numa curva para a direita e vi uma placa de 70 Km, um túnel em curva, sem faixas no chão e eu tentei usar um truque do Emerson quando entrava no túnel de Mônaco: antes da entrada mantinha uma vista fechada e logo que entrasse abria essa vista que não estava sob efeito da intensa claridade do sol. Só que ele a fechava alguns bons 100 ou 200 metros antes da entrada e isso, como toda a técnica, exige treinamento para ser executada de forma automática. Resumindo, foi uma cagada só....a curva era para a direita (a mais perigosa pois se você errar você vai para a esquerda - e a esquerda é sempre prenúncio de catástrofe) , quando dei por mim estava na contra-mão e em direção à parede do túnel.  Consegui manter a calma (não me perguntem como), contra-esterçar com vontade e voltar à faixa de rolamento da direita. Por sorte não vinha nenhum veículo em sentido contrário. Devo essa à todos vocês que torcem por mim, acredito na energia positiva que isso gera acabe me envolvendo. Obrigado e prometo não repetir a “técnica”.
Como ensinamento: jamais execute um procedimento para o qual você não está habilitado a fazê-lo. Leia sobre o assunto, treine em velocidades mais baixas até dominar a técnica antes de incorpora-la à sua “caixa de ferramentas de pilotagem”.
Daí para a frente redobrei os cuidados até chegar a Andorra La Vella, no principado de Andorra. Meus amigos, a cidade tem muitas edificações antigas reformadas, abrigando os mais famosos nomes mundiais nas áreas de joalheria, modas, diamantes, relojoaria além de ser um dos maiores centros produtores de perfumes do mundo.  





As ruas estreitas, o trânsito meio louco, a quantidade de motonetas, os guardas que assistem a tudo impassíveis não inibem a circulação de Aston Martins, Ferraris, Jaguares, Porsches e outros sem o mesmo pedigree. Mini Cooper e Alfa Romeo eram que como nossos Fiats Uno. Com tudo isso consegui um hotel, no meio da “furduncio”, por 35 euros com café da manhã que, confesso, comia como se fora um camelo se preparando para cruzar o Saara ocidental.  O roubo é no estacionamento 15 euros para automóveis e 6 para a Brigitte. Por ser quem ela é deveriam cobrar 60 euros. Burros !


quarta-feira, 3 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 17

PAMPLONA – FISCAL

3 junho 2015

Sai de Pamplona  e ao invés de tomar o rumo de Jaca optei por ir via Roncal. Embora mais distante uns 80 Km foi uma recomendação de Jorge “Mi Coronel” de Arraial do Cabo, afinal o cara nasceu em Pamplona e conhece toda essa área. Bem verdade que quando ele liderou o comboio para Ushuaia (em 2007) erramos o caminho várias vezes : em uma delas erramos de país, entramos no Chile achando que era Argentina ! Isto me levou a entender porque os espanhóis descobriram tantas terras – eles erravam o caminho !
Mas dessa vez “Mi Coronel” acertou em cheio, fui parar numa cidade da idade média. Mesmo as casas que pareciam não ser de pedra, deixavam uma parte da parede sem o reboco para mostrar a estrutura de pedras. Muitas com roseiras subindo pelas paredes. Não existem ruas mas sim corredores entres as casas, em algumas nem de motocicleta dá para passar.











Fiquei quase duas  horas por lá antes de colocar Jaca no meu horizonte. Como o Tomtom não é confiável, perguntei no posto de gasolina se estava no caminho certo e o frentista, espantado, falou que não,  eu deveria voltar 30 ou 40 Km e pegar a Autobia. Bom, foi uma dificuldade explicar que eu preferia ir por outra estrada que não a Autobia. Com cara de quem me achava louco ele falou para eu continuar então por onde ia afinal era a única alternativa, “La carretera Del pântano”. Ou eu estava cego ou não havia pântano nenhum, apenas o rio Asca correndo ao lado de uma estradinha bem simpática. 
Quando saímos da "Carretera del Pantano" uma planície se abre à nossa frente e a estrada divide uma plantação de trigo onde, à esquerda, o dourado de sua cor informa que está pronto para a colheita e forma um incrível contraste com o verde do trigo à direita da estrada.





Depois desse belíssimo visual achei que já tinha visto toda a beleza que o dia poderia me proporcionar e agradecendo a Deus seguia em direção a uma estranha elevação em meio àquela planicie. Quando me aproximo, descubro que o topo da colina era ocupado por uma cidade protegida, em todo seu redor, por mata nativa: uma fortificação que, além de perfeita, compunha um quadro extraordinário com as curvas da estrada. Que maravilhosa surprêsa ! É, parece que o Tomtom acertou dessa vez. Melhor não elogiar.









terça-feira, 2 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 16

RIAÑO – PAMPLONA

2 junho 2015

Hoje pela manhã depois de todo paramentado, moto com  bagagem arrumada e tanque cheio, saio do hotel e quando vou entrar na estrada vejo o lago em frente. Meus amigos, desliguei moto, tirei capacete e luvas, peguei a câmera fotográfica e o horário que tenha a santa paciência, uma visão daquela justifica tudo. Fiz o melhor possível pensando como aquela beleza foi a tristeza e ruína para muita gente. A estrada para Potes acompanha o rio Esla que, junto com o Yuso e o Orza forma a represa que inundou vale do Riaño e as 7 cidades que ali existiam. A forma com se deu foi traumática, sendo os habitantes expulsos por forças militares que ocuparam o vale até o dia em que foram fechadas as comportas, 31 de dezembro de 1987, um dia antes da entrada em vigor da diretiva europeia que, por motivos ambientais,  proibia construções de represas como a de Riaño. Loucuras dos homens...



O trecho entre Riaños e Potes é curto, cerca de 60 Km, e ótimo para a pilotagem, sendo que sua beleza, por vezes, tira a concentração de um circuito que exige muito do conjunto moto-piloto.
Saindo de Riaños, sempre subindo, passamos pelo Parque Picos de Europa, as curvas e a subida vão ficando cada vez mais acentuadas, frequentemente “cotovelos” de 180 graus em aclive obrigando uma primeira marcha até atingirmos o ponto culminante, exatamente na divisa entre  as Comunidades Autônomas de Castilla y Léon e Cantábria, onde há uma estação de Sky.   






A descida, também linda, exigia ainda mais, agora os freios também. Como de hábito, mantenho um nível de segurança que permite a pilotagem com um mínimo de adrenalina mas agora, longe de casa, com uma moto que não me pertence, sozinho e numa estrada sem movimento, aumento um pouco mais esse nível mas ainda assim sem atrapalhar ninguém e, claro, usando sempre o “freio motor”. 
Lá ia eu tranquilamente quando vejo pelo retrovisor um grupo de motos se aproximando, encostei na direita e os caras passaram voando baixo, o que estava no final do “bonde” acabou me ultrapassando na curva sem se importar com a possibilidade de um carro em sentido contrário. Devem ter achado muito engraçado. No dia seguinte parei para socorrer um deles preso em baixo da moto. O sacana caiu numa reta, naquela calha de concreto na lateral da pista. Seus colegas ainda estavam chegando porém eu estava mais próximo e fui ajudar o cara a sair debaixo  da moto.  Apenas arranhões, um retrovisor quebrado e algumas marcas numa Honda Transalp. Agradecimentos, apertos de mão e lá fui eu pensando: “- Tanto lá como cá é tudo a lesma lerda !” 





De Potes a Santander continuei por estradas secundárias e mais uma vez fui abençoado. Que estrada !  Que cenários ! Peguei a direção de Hermida e logo entrei num Canyon que quase nos intimidava. Altas escarpas, a estrada roubada à rocha à direita e o rio Deva correndo à esquerda, limitado pelo paredão que subia até impedir a visão do céu. Lindo mas o melhor me aguardava: a cada 5 a 10 Km um pequeno povoado de não mais do que umas 50 casas, quase todas de pedras, algumas remanescentes da idade média, onde a estrada era a avenida principal. Todas com jardins ou vasos de flores, como que saudando os passantes mesmo que fossem um velho motard e sua fiel escudeira. Maravilhoso.








Em Santander, já no principado das Astúrias, caímos num transito infernal. Errei a estrada umas 4 vezes (3 delas com ajuda do “carcará sanguinolento”) e acabei perdendo um tempo enorme. A solução foi entrar numa Autovia de 120 Km e apertar o passo para correr atrás de um hotel em Pamplona. Consegui aos 45 do segundo tempo. Agora era banho, comer algo e dormir pois amanhã temos mais trabalho pela frente.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

UM VELHOTE DE MOTO NA EUROPA - 15

Miranda do Douro – Riaño

1 junho 2015

Hoje comecei a segunda parte do roteiro traçado pelo Jorge Meirelles. O objetivo é Andorra porém passando por um roteiro sugerido por ele que conhece bem a área. Muitas vezes amigos sugerem cidades, locais especiais ou roteiros de dar água na boca e não entendem, como nós motoqueiros, trocamos o charme, o conforto e a segurança dos grandes circuitos por estradas sinuosas, na maioria das vezes em montanhas, com raros postos de combustível,  passando por vilarejos quase desconhecidos para, ao final, sujos,  cansados e com os olhos brilhando prometer repetir o circuito recém terminado. Só quem é do ramo entende e por isso digo que foi uma sorte encontrar o apoio do pessoal do Motoclube do Porto e, em especial, o do paciente e fraternal  Jorge Meirelles. Assim como esta viagem, ficará também gravada entre minhas melhores lembranças a irmandade que encontrei entre os “motards” portugueses.  Os gajos carregam n’alma o mesmo espírito aventureiro que fizeram este país, contra todos os fatos, tornar-se uma das maiores potencias marítimas na época das grandes navegações.  
Isto posto, voltemos à perna entre Miranda do Douro e Riaños. A primeira fase, aquela em território português, me impressionou pela perfeição do conjunto: estradas para quem gosta de pilotar, paisagens de tirar o fôlego, vilas e cidades onde se respira história e uma gente que nos recebe com a alegria de reencontrar um irmão d’além mar. Depois de tudo isso imaginei que a segunda parte, já agora em território espanhol, muito dificilmente estaria à altura da primeira, afinal, e como fosse pouco,  eles não tem o Douro, pensei. Mais uma vez precipitei-me, já na entrada da Espanha começa uma região de barragens cujos lagos refletem ruínas deixadas por antigos habitantes. E foram tantos os que se sucederam ao longo dos milênios que tornou-se fácil identifica-los pela sua influencia nas relíquias históricas deixadas pelo caminho: romanos, mouros, visigodos, saxões, bretões, gauleses, etc.
Como sempre, muitas paradas para fotos ou, simplesmente, para entrar e fazer parte de um cenário, mesmo que por poucos minutos,  afinal é o que ainda fazemos no grande espetáculo chamado vida.
Com tudo isso, o tempo de viagem foi aumentando e resolvi acelerar o passo, a melhor saída para faze-lo era buscar uma autovia e “enroscar o cabo” mantendo 120 Km e de vez um quando um “outlaw” para acompanhar os mais apressados. Nesse momento o Tomtom Macoute entrou em parafuso e me informava que não havia estrada sob as rodas da Brigitte. Enlouqueceu totalmente, só o mantinha ligado para controlar a velocidade já que montei todo o roteiro baseado no Atlas de Carreteras Michelin. A estrada que ele jurava de pés juntos não existir é a A6, duas pistas com 3 faixas de rolamento cada uma com velocidade de 120 Km que liga Madrid ao Atlântico, ou seja trata-se de um boçal.

No km 160 da estrada peguei a N625, margeando o rio Esla, evitando entrar em León e que me levou a Riaño por pista única,  asfalto muito bom, como em todas as estradas até agora, e no final (já sendo chamada de N621) um trecho com uma gostosa serrinha e a chegada num belo lago  aos pés do Parque Nacional dos Picos de Europa, onde, para não perder o hábito, parei para umas fotos e acabei batendo papo com um motard de Bilbao que parou para fazer fotos também.