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domingo, 17 de junho de 2018

AMERICAS TOUR 2018 - 13

REFAZENDO PLANOS, QUE NUNCA EXISTIRAM !

Huntley (IL) - Burton (MI) - Toronto (ON) 
16 e 17 de junho de 2018

Como sempre, inicio minhas viagens sem nada definido. No máximo cumprir algumas obrigações inadiáveis como revisão e vistoria da moto. Não reclamo, principalmente da vistoria que me leva a poucas milhas do Tail of the Dragon, ótima forma de iniciar uma viagem. Depois disso é seguir o instinto e ficar atento às oportunidades com que o destino nos presenteia. Claro que sonhos sempre nos acompanham para que, caso surja a ocasião, transformemo-los em realidade.
E foi assim, com esse ânimo, que iniciei a etapa que me levaria a cruzar a fronteira com o Canadá para encontrar-me com uma família famosa nos meios jipeiros de Sampa: os Pieroni.
De Huntley a Toronto eram 913 Kms. Após convencer a Maggie, o Mark e a mim mesmo que precisava partir, decidi acordar bem cedo e fazer o percurso em uma só "pernada". Doce ilusão: acordei tarde, derrubado pelas despedidas da véspera, e a Argentina empatava com a Islândia!
Impossível partir, precisava ficar torcendo para os "Hermanos".
Com isso sai tarde, sol a pino, braços começando a descascar como fosse uma cobra trocando a pele, a despeito do spray bloqueador que a Maggie colocou no bagageiro da Helô, junto com água gelada, banana, cereais e muitas saudades.
Foi muito difícil desatracar daquele porto seguro.
Bagagem arrumada, capacete e luvas colocados em silêncio, braços nos estreitando em abraços emocionados. Montar na moto, dar a partida e ficar olhando pelo retrovisor as figuras queridas diminuindo até desaparecer na curva. Um ritual que se repete a cada despedida....e são tantas na minha vida.
A estrada com pouco movimento, o sol castigando mais do que de costume e uma perigosa sonolência. Decidi não forçar e não tentar atravessar a aduana canadense à noite. Tinha certeza de que teria problemas, sempre tive e hoje não seria exceção. Resolvi adiantar a viagem no que fosse possível e ao mesmo tempo praticar uma pilotagem com o mínimo de riscos porém com garbo e elegância, como prometi ao Badá Barreto em resposta à bela homenagem que me prestou hoje pela manhã.
Foquei a pilotagem com um rigor maior do que o habitual e isso foi muito bom. Ajudou-me aliviar o vazio que sentia pela partida,  identificar riscos e adotar medidas para evita-los além de me lembrar do prazer que é dominar uma motocicleta. Nada se compara a isso, as mãos segurando as manoplas sem aperta-las mas com firmeza, o ante-braço formando um ângulo de 45 graus com o braço, o cotovelo um pouco mais baixo do que o punho, a coluna ereta, o olhar por cima do para-brisas: buscando enxergar o mais distante possível nas retas e os pontos de tangência e de saída nas curvas. A visão periférica se encarregando de complementar o conjunto de informações visuais requeridas para uma boa pilotagem. Creio que meu amigo Badá Barreto não se decepcionaria.
Sem sentir os 540 km e o tempo passar cheguei a Burton, onde resolvi passar a noite.
Dia seguinte, 17 de junho - domingo, acordei cedo, tomei um café aguado, pé na estrada vazia e com tempo nublado.
Foi um tirinho rápido até a fronteira e, como sempre, me seguraram. Perdi mais de uma hora dando explicações.
Pela primeira vez me disseram o motivo: em 2012, ainda com a Camila (uma Goldwing) fui até a aduana sem o visto canadense e voltei (me disseram que não precisava). Depois disso tirei e renovei o visto canadense mas eles ainda tem medo de mim.
Bem, nada disso tinha a menor importância, eu entrei no Canadá e estava me dirigindo a Toronto, para rever uma família que faz parte da minha vida: os Pieroni de Sampa, agora do Canadá (Henrique, Helena, Rafael, Amalia, Amanda e Luigi).
Conheci-os em Sampa lá pelos idos de 97 ou 98. Eu saia de Cabo Frio no "Esbelto Infante" (um M-38A1) ia para Sampa e partíamos junto com um grupo para Monte Verde (MG) por umas trilhas onde tínhamos que cortar árvores caídas e improvisar pontes. Em outras ocasiões íamos para Brotas, ou Penedo, ou Queluz, ou.....
O Henrique tinha uma Camper que funcionava (e bem), além de 2 Bonanzas (uma 6 canecos à gasolina e outra diesel), além de uma Caravan e um Opala. Todos 6 cilindros, claro. A Helena era a mãezona do grupo, cuidava de todos além dos filhos: Amanda e Luigi (já que o mais velho, Rafael, mais lúcido, não era amante dessas roubadas). A expectativa de encontra-los era enorme. Apesar de nunca termos perdido o contato, não nos víamos há uns 6 anos. O reencontro com essa turma foi sensacional: abraços, beijos, risos e gargalhadas, como sempre acontece quando nos encontramos.
Fizeram eu guardar a Helô na garagem e esquecer a viagem por algum tempo. Eu ia conhecer Toronto como deve ser: de ônibus, metrô, trem, bonde e a pé. Todos os dias tenho alguma coisa nova para conhecer, eles se desdobram para me mostrar a cidade e como é viver no Canadá.
A Helena cobrando que eu coma frutas, beba água e não esqueça do remédio da PA, assumiu o lugar da Maggie. Confesso que estou ficando mal acostumado com tanto carinho e atenção.
Como falei no início, não tinha planos, mas os sonhos não nos abandonam e um deles é voltar a pilotar uma moto na Europa. Quero terminar a viagem que comecei em 2015 e tive que encurta-la por conta de um acidente, ainda que tenha levado a moto de volta ao ponto de partida: Paris. 

Descobri no início do ano que a Air Canada transportava motos de Toronto para Lisboa e comecei a ficar com minhocas na cabeça - embarcar a Helô em Toronto, ir no mesmo vôo e descarrega-la em Lisboa.
A Helena começou a me ajudar na matéria e sai de Cabo Frio já com algumas informações importantes: uma delas era que a Air Canada não tinha mais esse serviço para Portugal, as opções seriam Londres ou Bruxelas. Além disto ela descobriu que eu teria que ter um despachante aduaneiro para a parte burocrática e contatou um deles. Assim quando cheguei tinha todas as informações necessárias para avaliar. Completei as informações restantes, analisei todas as alternativas e conclui que o custo seria muito alto. O que levou-me a desistir da empreitada (temporariamente - sou um eterno otimista).




 


















sábado, 16 de junho de 2018

AMERICAS TOUR 2018 - 12

  1. AINDA QUE A SAUDADE NOS ACOMPANHE, NAVEGAR É PRECISO...

  2. Hunterley (IL) 

  3. Meus caríssimos companheiros de viagem, ontem o Mark e a Maggie levaram-me a conhecer um pouco mais da pequena, bela e bem cuidada Huntley. São 22.000 habitantes que usufruem (e zelam) de uma cidade que parece cênica.
    A economia é baseada na agricultura (milho e soja) mas suas terras convivem em harmonia com bosques e lagos cortados por pequenas estradas vicinais, perfeitas para rodar de moto.
    A cidade tem um centro comunitário à altura dos melhores clubes de grandes cidades. A biblioteca é um local de onde não se tem vontade de sair. Livros, vídeos, computadores para o público, jornais do dia e local adequado para lê-los.
    Que diferença para a biblioteca de Cabo Frio com mais de 220.000 habitantes, mantida de pé por pura teimosia de poucos e abnegados funcionários.
    Apesar dos prédios modernos o lado histórico da cidade foi preservado, e da melhor maneira possível: BARES. Alguns com mais de 100 anos porém mantendo as características originais. Isto nos permitiu fazer um pequeno tour por alguns deles, mantendo um certo controle (afinal estávamos de moto e a Helô começou a me olhar de cara feia).
    Mas quando chegamos em casa o controle acabou. Enquanto aguardávamos a Maggie chegar do trabalho demos um desfalque na adega com a ajuda do vizinho motoqueiro. Depois da segunda garrafa de vinho o inglês ficou mais escorreito (nem sei o que significa mas a palavra caiu bem nessa frase) e novas palavras foram adicionadas ao idioma sem o menor respeito por Shakespeare.
    Foi uma despedida e tanto, o problema vai ser acordar amanhã e começar a jornada para o Canadá.




















quarta-feira, 13 de junho de 2018

AMERICAS TOUR 2018 - 11

UMA RECEPÇÃO PARA NÃO ESQUECER....

Indianápolis (IN) - Huntley (IL) 13 junho 2018

Conforme vocês devem ter percebido, tirei um período de férias destas mal traçadas. Não por boniteza mas por precisão. Para curtir, de forma adequada, o carinho e a hospitalidade que a Maggie Reis e o Mark tiveram com este velho cretino (segundo especialistas na matéria: mulheres, claro).
Como essas pessoas surgiram na grande Estrada, que teima em me levar para o futuro em velocidade maior do que a desejada, é uma história que merece ser contada. Paciência pois.
Após o sucesso da viagem do Felipe ao Alaska em 2016, onde peguei uma carona das mais prazerosas, a repercussão no meio motociclístico foi grande e naturalmente estimulou muita gente a realizar seus sonhos, fossem o Alaska ou o município vizinho. Em função disso, algumas pessoas me procuraram para conversar sobre a viagem.
Um dia recebo uma mensagem dos USA da Maggie. Não sabia quem era e logo imaginei alguma multa ou conta que esqueci de pagar (um salutar esporte, praticado pelos Rodrigues Silva com alegria e competência - mas pagamos sempre, acrescidas de multas, taxas e emolumentos). Porém não era nada disso, tratava-se de uma brasileira, motociclista, casada com o Mark, um americano também motociclista, que tinha como sonho vir ao Brasil pilotando sua moto.
Como apenas seus netos apoiassem a ideia ela queria a opinião de alguém com um pouco mais de maturidade (os netos devem ter 4 e 5 anos respectivamente e eu não fico muito longe disso, segundo a oposição).
O fato é que começamos a trocar informações e opiniões e apresentei-a a um grupo fantástico que minha amiga Karen Mcfo e Miguel Urista (do México) criaram, o International Assistance for Motorcycle Travelers. Grupo este que hoje conta com mais de 3.800 membros com pontos de apoio nas 3 Américas, Europa, Asia e Oriente. Provando que independente de religião, idioma, ideologia e outras besteiras que tais, a motocicleta tem um incrível poder de unir e despertar a solidariedade nas pessoas.
A Maggie já entrou em contato com a Karen e começou a perceber que seu sonho é perfeitamente viável.
Como minha viagem estava programada desde que a Maggie entrou em contato comigo combinamos que eu passaria por Huntley para conhece-los e talvez uma cerveja.
Bem, este era o combinado e foi assim que esse casal de motociclistas entrou na minha vida para ficar.
Voltando à narrativa, sai de Indianápolis com a temperatura já bem mais baixa, céu nublado mas sem chuva, o que tornou a viagem bem confortável. Não era muita coisa não, apenas 240 milhas (+ ou - 390 Km) mas atravessar Chicago em obras foi terrível: 40 minutos em meio a um engarrafamento que levou a temperatura da Helô a um nível de fritura d'ovos. Além de tudo rampas fechadas, desvios aloprados e o GPS entrando em "parafuso". A única alternativa era seguir em frente empurrando a moto com os pés, quase sempre, ou em primeira, quando possível.
Com tudo isso, cheguei no horário planejado. Milagre ! Pensei. Não sua besta, diferença de fuso horário.
Mas todas esses perrengues ficaram para trás quando toquei a campainha e a Meggi me recebeu com uma bronca bem humorada: "- Mas que raios de moto é essa que não faz barulho !". Pronto, quebrou o gêlo.. Em seguida mandou-me guardar a moto na garagem e, de forma idêntica à que fui recebida pela minha comadre Odete 5 anos atrás em Oklahoma, ela e o marido me ofereceram uma cerveja gelada para ajudar na caminhada até o "meu" quarto e apresentar-me ao freezer com várias marcas de cerveja. Sinceramente, recepção como esta deveria constar dos melhores manuais de boas maneiras.
Mas as surpresas não tinham acabado. Após um banho que melhorou até a visão da minha conta bancária, fiz a gentileza de colocar uma camisa limpa e me preparar para almoçarmos fora. Mas nãos, nada disso. O Mark convidou-me para uma pescaria no lago aos fundos de sua casa. Isca artificial, molinete desconhecido e lá fui pescar o almoço mas nem arremessar eu conseguia. Comecei a considerar seriamente um Bob's para o almoço até que um aroma bem conhecido começou a invadir Huntley.......FEIJOADA ! Não, devo estar sonhando, depois de séculos (parecem milênios), comendo feijão adocicado dos mexicanos uma feijoada. Só faltava uma caipirinha legítima......faltava, não falta mais. O Mark, conhecedor das coisas, preparou uma caipirinha com cachaça brasileira que não faria feio em nenhum boteco do nosso maltrado Rio de Janeiro. Não faltaram ao encontro o arroz, a couve, a farofa e a pimenta.
Depois disso vocês acham que eu teria inspiração para alguma coisa que não fosse uma boa soneca !
Acabei ficando aqui ontem e hoje, pelo andar da carruagem, também ficarei e saio amanhã bem cedo para evitar o transito de Chicago.
Ontem fomos até a HD de Woodstock, a 2a. maior do USA e de lá um rolezinho até Lake Geneva, onde recebemos os tickets, comandado pela Maggie com sua De Luxe pilotada com garbo e competência.
Quando conversávamos sobre viagens e distancias ela me disse que tinha ido a New York sózinha com a moto.
Quantos dias, perguntei: "Um dia, sai às 5 h e cheguei às 23 h" ................São 1.000 MILHAS !
Sim essa mulher vai com sua moto ao Brasil.