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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tail of the Dragon - 2a. parte

Tudo bem, descubro minha estrada e também que não conheço absolutamente nada sobre ela, o tempo urge e não posso desperdiça-lo, assim é que passo a ler os "folders" e livretos com que a vizinha da Cristiane me presenteou, o "google" ajudando nos intervalos mas a melhor ferramenta continuava sendo o  "Ride Planner". Coloquei Charlottesville como ponto de partida e Cherokee como destino, automáticamente o software traçou o caminho mais curto, que não me interessava. Usando a função "drag" (aquela que tem u'a mãozinha) arrastei o caminho traçado para cima da Blue Ridge Parkway e a partir daí comecei a fazer meu planejamento. Calculei quanto rodaria no primeiro dia e estabeleci Boone como local a pernoitar. Para isso inseri-o como um ponto entre as duas cidades originais. Com a função de "zoom" eu conseguia ver as interseções com outras estradas com muita clareza e riqueza de detalhes. Para facilitar minha vida comprei um GPS mas como a traquitana iria chegar dois ou três dias depois e eu estava louco para pegar a estrada, comprei um baita mapa, peguei as instruções , abasteci a Angelina, despedi-me de todos e parti ao encontro de meu Shangri-lá, que dessa vez chamava-se “Tail of the Dragon”.  Foi muito fácil encontrar a “minha” estrada, a sinalização é clara e lógica. 











 



A Blue Ridge é uma estrada de pista única, com mão dupla e praticamente sem acostamento, que liga o Shenandoah National Park, na Virginia, ao Smoky Mountains National Park. Ela tem 440 milhas de extensão e termina na cidade de Cherokee (NC) em um território desta nação indígena.



 




 




















A beleza da estrada, principalmente no outono quando estão mudando as cores da folhagem dando um colorido variado à sua vegetação, além das vistas que se apresentam a medida em que a altitude aumenta, obrigam-nos a parar sempre que aparece um “overlook”, seja para curtir a paisagem, tirar fotos, fazer uma prece agradecendo o milagre da vida ou até mesmo para velhos com a bexiga cheia procurarem o tal de “rest room” e descobrir que não existem. Cada um que dê o seu jeito. O fato é que esses mirantes estão sempre coalhados de motos e, quem sabe influenciados pela beleza da vista,  cumprimentos, sorrisos e votos de boa viagem são trocados efusivamente.










Foi num desses mirantes que conheci o Mark e o John, dois gringos do Arkansas que viajavam juntos. Após tirarmos algumas fotos me convidaram para seguir com eles até a próxima saída para a cidade de Boone, onde, além de jantar, pernoitaríamos.

     
O John saiu na frente, eu em seguida e fechando o “bonde” ia o Mark. O nosso líder imprimia uma velocidade que me obrigou a enroscar mais o punho do que gostaria mas o que fazer ? O grande problema é que seu amigo que fechava o grupo não conseguia nos acompanhar. Tive a ligeira impressão que ele fazia aquilo para se exibir, seja como for resolvi ficar na sua cola e ele passou a  reduzir a velocidade para esperar o amigo se juntar a nós. Chegamos a Boone já anoitecendo e fomos direto jantar num restaurante mexicano. Cerveja (Sol) gelada e comida quentíssima (pimenta), o papo foi legal e o John, que é fazendeiro e criador de touros para rodeio, se disse fã dos peões brasileiros, para ele os melhores do mundo. Fiquei pensando, será que esse sacana pensa que sou peão para andar naquela velocidade ? De qualquer forma resolvi prosseguir sozinho no dia seguinte e, após trocarmos e-mails e despedidas, procurei um hotel, tomei um belo banho e dormi o sono dos justos.
            No dia seguinte acordo bem cedo com uma baita chuva e um frio que pedia um Jack Daniel´s para firmar o caráter. Como estava em jejum não cometi essa temeridade. Curti um pouco mais a cama antes de fazer o desjejum e aproveitar para comer como um camelo, antes de atravessar o deserto,  o faz com a água. Quando termino a lauta refeição a chuva havia parado e alguns rasgos de azul apareciam entre as nuvens. Enxuguei a Angelina com uma toalha do hotel, abasteci-a e novamente Blue Ridge Parkway. Meus amigos é uma estrada de sonho, as paisagens que vão se sucedendo são simplesmente deslumbrantes. A sensação é estarmos pilotando uma Harley dentro de um cartão postal.



  





Como estávamos subindo, chegando ao ponto culminante da estrada, ao mesmo tempo em que a temperatura caia o vento aumentava e a sensação térmica caia uma barbaridade. Foi quando descobri uma grande asneira que cometi: luvas. Levei luvas bem leves, daquelas furadinhas para verão. As juntas dos dedos doíam, latejavam e eu me xingava no mesmo ritmo: “-Burro !”, “-Burro !”.... O que aliviou e até mesmo me fez esquecer o desconforto foi atingir o ponto mais alto da estrada, mais de 6.000 pés de altitude !




 













Enquanto aquecia as mãos junto ao bloco do motor da moto, após as fotos tradicionais, escuto um ronco familiar e três Harleys encostam junto à Angelina e seus pilotos se dirigem ao marco geográfico para as fotos. Como o tripé estava montado ofereci-o para que eles o utilizassem já que a máquina deles tinha “self-timer”.




 







Após as fotos e me perguntarem se eu era russo (!!!!) devido ao meu sotaque, iniciamos um bate-papo e descobrimos que nosso destino era o mesmo. Eles me deram algumas dicas sobre caminhos alternativos que me levariam a chegar à US 129, estrada onde está localizado o  “Rabo do Dragão” em Deal’s Gap. Como faltavam umas 60 milhas para chegar ao fim da Blue Ridge  resolvemos descer juntos até Cherokee, onde eu pretendia pernoitar e eles abastecer as motos. Dessa vez me deixaram fechando o comboio e, mais uma vez, senti que os caras, ou queriam se exibir ou me deixar para trás mesmo. Meus amigos, foi bonito de se ver mas também uma temeridade ainda que eu jamais tivesse ultrapassado meu limite. O fato é que as curvas se sucediam cada vez mais rápidamente, eu só via o cara na minha frente acendendo a luz de freio no meio da maioria delas e se “embananando” todo (tenho isso filmado), dei um pouco mais de espaço para me desviar dele caso necessário e concentrei-me no bailado com a Angelina. Olhar no ponto de tangência, redução de marcha, contra-esterço, peso na plataforma do interior da curva, olhar no ponto de saída, aumento de aceleração e a danada da Angelina se aprumando elegantemente parecendo me dizer: “-É, não está de todo mal para um velho”.  Foi assim o tempo todo até chegarmos a Cherokee. Paramos em um posto logo na entrada da cidade para abastecer e nos despedirmos, foi quando o Rick, que vinha liderando o comboio com sua Springer 97 toda mexida,  falou comigo que normalmente eles não andavam àquela velocidade mas é que eles estavam com muita pressa pois ainda iriam para Gatlinburg, a cerca de 50 milhas.  Ai foi a minha vez de tirar um sarro, respondi: “-Normalmente eu também não ando a essa velocidade mas como não estou com pressa, não tem problema!”. Hehehehehehehehehe.

Abaixo fotos da Springer do cara. Lindíssima.



 









Dormi em Cherokee, uma pequena e agradável cidade dentro de um território indígena e no dia seguinte, antes de seguir viagem, passei no posto para abastecer e aquecer-me com um capuccino. O dono do posto, ao ver meu crachá da Equipe Gato Cansado com o brevê de piloto, perguntou-me se eu era militar. Respondi que sim, da reserva da Força Aérea Brasileira (sou apenas um modesto soldado de 1ª. Classe), e acrescentei: "- a única Força Aérea da América Latina que lutou na 2ª. Guerra Mundial". Pronto, a feição do homem mudou, ele também lutou na 2ª. Guerra. Na hora de pagar ele disse que o capucino era uma cortesia que fazia à nossa gloriosa FAB. Fiquei devendo um capuccino ao 1º. Grupo de Aviação de Caça.












Ao sair do posto tomei a direção de Gatlinburg, no Tenessee, pois as informações sobre a cidade eram as melhores além de me permitir fazer o caminho recomendado pelos gringos que haviam ido para lá na véspera. A estrada para Gatlinburg passa através do Smoky Mountain National Park, ou seja mais uma sucessão de paisagens belíssimas, asfalto perfeito com curvas para todos os gostos, um frio de rachar e o vento que lembrava a Patagônia. Gatlinburg faz juz à fama. No inverno a cidade se transforma numa estação de Sky, mas mesmo no outono o movimento é intenso, principalmente de motos pois a partir dali você pode pegar a “Foothills Parkway” e, mesmo dando uma volta maior, chegar ao “Rabo do Dragão” pelo lado oposto a Deal's Gap, considerado o seu ponto de partida. Esse era nosso propósito.


  




 








Resolvi tirar um dia de folga para conhecer Gatlinburg e fazer algumas compras. Durante toda a viagem mantinha contato via Nextel com o Cyro e a Cristiane, assim é que recebi a notícia que a meteorologia previa neve nas montanhas e uma frente fria se dirigia para a região em que eu estava. Isso mudou meus planos, Foothills Parkway ficaria para outra ocasião, não retornaria pela Blue Ridge e iria para o Dragão o mais rápido possível. Voltei para Cherokee e de lá fui diréto para Robbinsville onde, finalmente, encontrei o Deal’s Gap, a entrada do “Tail of the Dragon”, motivo da minha viagem, ponto de encontro de motociclistas de todas as partes da América e um desafio que, se não encarado com muito respeito, pode ser extremamente desagradável como lembra a árvore decorada com pedaços de motocicleta bem em frente ao que é considerado a "start line" do Tail of the Dragon.







FIM DA 2a. PARTE

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tail of the Dragon - 1a. parte


Inicialmente a idéia era uma viagem à cidade de Charlottesville na Virginia, onde me encontraria com o Comandante Cyro França na casa de sua filha Cristiane. Como tinha milhas de crédito suficiente para as passagens de ida e volta,  tentei agendar o vôo junto com o dele, no dia 20. Não foi possível, assim é que sai do Brasil no dia 23 de setembro às 21:45 h e após uma maratona de 3 vôos, passando por 4 aeroportos, cheguei a Charlottesville no dia 24 às 16:00 h.




Charlottesville foi considerada, em uma pesquisa de 2008, como uma das melhores cidades para se viver nos USA. Utilizamos os três primeiros dias para saber o motivo e acabamos por concordar com a justiça da escolha. A cidade, além de linda e ter seus serviços públicos funcionando de forma irrepreensível, acolhe uma população que tem orgulho de sua cidade e, mais ainda, de sua importância na história da nação.
    
                                                                  



Um dos pontos que mais nos impressionou foi a University of Virginia. Não apenas pela sua arquitetura mas, principalmente, pela forma como mantém o espírito e a visão desenvolvimentista que nortearam seu criador: Thomas Jefferson. Ciceroneados pelo Bob, genro do Cyro e professor da University of Virginia, tivemos acesso às suas instalações e todas as informações sobre sua criação e funcionamento. Foi como se tivéssemos um curso intensivo de história norte americana.

















A arquitetura da University of Virginia data do século 18 e seu estado de conservação é invejável, alamedas floridas e muros ondulados, além de quebrar a monotonia convidam ao estudo e à meditação. Entre seus alunos famosos, o escritor Edgard Allen Poe, autor de “O corvo” e cujo alojamento foi preservado exatamente como na época de sua utilização pelo então aspirante a escritor.




 







No 4º. dia fomos à Shenandoha Valley na concessionária HD, cerca de 45 milhas de Charlottesville. Mais uma vez a incansável Cristiane, filha do Cyro, nos conduzia e com uma paciência infinita aguardava que namorássemos todas as motos, peças e acessórios daquela imensa concessionária.





  






Após cumprir toda a burocracia para o aluguel da moto, fomos apresentado a dita cuja: uma Ultra Classic 2011, em dois tons de grená com 8 k milhas rodadas prontamente batizada de Angelina. O gerente, que já havia ficado impressionado ao ver a página do Cyro e filmes de sua pilotagem no note-book, pediu-me que desse uma volta pelo estacionamento pois era uma praxe antes de liberar a moto. O Cyro falou-me para sair fazendo uma curva para a esquerda e emendar com um “oito” para a direita. Só posso dizer que foi legal, aliás muito legal. Fiz a curva para a esquerda, que era em declive, utilizando a técnica aprendida com o Cyro e quase raspando a plataforma no asfalto. Emendei uma curva para a direita e o cara falou com o Cyro que era o suficiente mas eu, empolgado que estava, não ouvi e comecei a fazer oitos como um alucinado, acho que pensaram até em me abater a tiros. Por sorte vi a Cristiane o Cyro e o gringo sacudindo os braços como náufragos me mandando parar. Foi meu momento de glória, afaguei a Angelina e estacionei elegantemente na frente do gringo. Só faltou a cara de mau. Eu bem que tento mas pareço mais ridículo do que mau. Quando o gerente me parabenizou apontei para o Comandante Cyro, caprichei na pronúncia e mandei: ”- He’s my teacher” .  Acho que ele ficou pensando que  faço as mesmas manobras, e com a mesma classe, que ele viu o Cyro fazer no filme.

 




 







Isto é uma coisa que jamais cansarei de falar: se não fosse o aprendizado das técnicas de pilotagem da polícia norte-americana com o Cyro, com toda certeza jamais me atreveria a fazer viagens como essa. Provavelmente nem mesmo teria uma motocicleta do porte de uma Harley Davidson hoje. Uma pena que poucos, cerca de 2% apenas, conheçam e utilizam esta técnica. Quantos acidentes, quantos sofrimentos e até mesmo quantas mortes poderiam ser evitados ?  

O aluguel foi por uma semana e não me foi dado o desconto por ser membro do HOG, diferente do que aconteceu em Los Angeles, quando obtive um desconto de 10 %. Desta forma o aluguel ficou em 125 dólares por dia com seguro total incluído. O Cyro não alugou a moto pois optou, muito justamente, em curtir netos, filha e genro, afinal não é toda hora que se faz uma viagem dessas e ele estava há 6 meses sem vê-los. Em princípio a idéia era fazer alguns circuitos em torno de Charlottesville. Eu já tinha até um roteiro pronto quando o Cyro falou um nome que mexe com as emoções de qualquer motociclista, até mesmo dos velhos como o locutor que vos fala: “Tail of the Dragon”.    







  



                           

Falando como quem não quer nada mas com um olhar cúmplice ele dizia que a distancia até lá eram de míseras 700 milhas o que, para quem já esteve a mais de 5.000 milhas, era quase como atravessar a rua. Pronto, estava resolvido, nosso destino era o “Rabo do Dragão”. Entrei no “Ride Planner” e tracei o caminho entre os dois pontos: Charlottesville na Virgínia e Robbinsville na Carolina do Norte, sendo a US81 o caminho mais curto  . Acontece, como tudo na vida, que nem sempre aquilo que se afigura como o mais fácil é o melhor. O Bob já havia me falado em uma tal de Blue Ridge Parkway quando, em conversa com uma senhora vizinha deles, ouvi novamente este nome com a recomendação que não deixasse de conhecer a estrada, apenas deveria tomar cuidado pois ficava coalhada de motociclistas, uma fauna estranhíssima,  com suas Harleys barulhentas. Bingo, pensei, é a minha estrada.


FIM DA 1A. PARTE


Hélio Rodrigues Silva 20/10/2011










quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Primeira Viagem - Impressões

Abaixo, após autorizado pelo autor, posto um e-mail que recebí do Cleber Moscardini a respeito de sua primeira viagem com uma Harley Davidson onde ele descreve, de forma didática, como se utilizou de "dicas" recebidas bem como algumas impressões que poderão ser de muita utilidade para todos nós.


"Amigo Hélio,

 Desculpe a intimidade mas alguém que lhe ensina coisas que podem salvar sua vida só pode ser chamado de amigo.
Minha primeira viagem de Harley Davidson foi uma das experiências mais felizes que já tive, no entanto algumas observações acho importantes para os "harleyros" de primeira viagem. Dos conselhos diversos que recebi, dois acredito absolutamente fundamentais numa primeira viagem.




1.Nunca desista da curva. Ocorreu que eu entrei em uma curva com um pouco mais de velocidade do que acreditava ser capaz de controlar e senti, num milhonésimo de segundo, um frio na barriga, o coração mais acelerado e um medo danado de não conseguir vencê-la. Por um breve momento me ocorreu que a coisa não iria dar certo mas tive sangue frio, assim acredito, apliquei uma dose de pressão no guidão, diminui o raio da curva e me lembrei do segundo grande e essencial conselho:




2. A moto vai para onde você olha. É impressionante como isso funciona. Aplicada a energia, a velocidade, a tocada certa, acredito que se é capaz de vencer qualquer obstáculo simplesmente fixando-se onde você precisa ir. Travar o olhar para o chão, canaleta, velocimetro ou qualquer outra coisa praticamente lhe impedem de fazer o que é preciso.




Duas outras coisas também impressionaram:

Primeiro, o frio. Não imaginava que em movimento a sensação térmica era tão "cortante". Usei luvas com a cobertura em tecido e num dado momento nsentia mais meus dedos (às 7 hs. num trecho de serra). Melhor não subestima-lo da próxima vez.

Segundo, o impacto do vento. Nós, que somos apaixonados por nossas custom e renunciamos a todas as firulas aerodinâmicas, pagamos o preço de sentir uma pressão danada a mais de 100 km/h. E quando ultrapassado por um veículo de grande porte, ou cruzando com um, leva-se um verdadeiro golpe aerodinâmicoe prevê-lo é melhor do que recebê-lo desprevenido, o que pode lhe tomar o contrôle da moto mesmo em retas.




No mais, o som do motor, a vibração do propulsor e a vista da estrada se entregando à sua frente é uma sensação que só quem viaja de Harley pode ter.




Muito obrigado novamente,




Cleber Moscardini em 07/09/2011"

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pilotagem - A primeira viagem

Grande Moçada,
Abaixo e-mail que enviei para um companheiro que me escreveu solicitando algumas dicas para sua primeira viagem de moto. Pedi autorização para postar aqui no blog, quem sabe possa ser útil a alguém ? Além de autorizar pediu-me que colocasse seu nome e e-mail à disposição de todos. Como se vê, um verdadeiro motociclista.



Grande Cleber Moscardini,

(cbmosca@yahoo.com.br

parabéns antecipados pela viagem e pela forma como será feita: "devagar para chegar depressa" (como dizia minha mãe).
Na realidade o mais importante da viagem não é chegar, é voltar. Vá tranquilo, controlando a ansiedade, mantendo o foco na pilotagem sem se distrair com paisagens ou qualquer outra coisa. Procure pilotar naturalmente sem agarrar os comandos de forma tensa. Pare a cada 100 km (ou menos, se preferir) para esticar as pernas, beber  água (cuidado com a desidratação) , tirar "água do joelho" e dar uma relaxada.
Aproveite para um check visual na máquina (pneus, vazamentos, barulhos estranhos, etc). Limpe a viseira do capacete e abasteça a máquina. Tudo isso com calma.

Com relação ao contra-esterço vamos lá: tenha em mente que você só faz curvas acima de 30 km/h usando o contra-esterço (conscientemente ou não). Para entender como funciona faça o seguinte: Pegue dois copos iguais, cujo fundo seja menor do que a boca. Coloque uma boca contra a outra e passe uma fita adesiva em volta de forma que eles fiquem unidos. Coloque-os sobre uma superfície plana e você vai ver que a parte mais alta (onde as bocas foram unidas) é semelhante a área central de um pneu de moto. Apoie o copo da esquerda na mesa e leve-o para a frente (é exatamente o movimento que a roda da moto faz ao contra-esterçamos nas curvas para a esquerda). Apoie a palma da mão no copo da esquerda e faça-o rolar para a frente. Você verá que embora esteja virado para direita ele tomará a direção da esquerda. Isso é chamado de efeito giroscópico e é assim que as motos fazem curvas acima de 30 km/h quando se manifesta o tal de momento angular.

Por tudo isso fique tranquilo, se você achar que exagerou no contra-esterço basta aliviar a manete que você empurrou para a frente que a moto reduz a inclinação e, em conseqüência, aumenta o raio da curva. Vá para uma rua deserta e, a uns 40 km/h, pratique fazendo uma espécie de “slalom”, empurrando (suavemente sempre) ora a manete da direita ora a manete da esquerda.
Outro recurso que você pode (e deve usar) é o freio motor. Ao entrar em uma curva reduza para uma marcha inferior e entre com o motor em um giro (rpm) superior ao que estava antes da curva. Isso permite que você reduza a velocidade sem necessidade de usar os freios, apenas fechando o punho do acelerador. Observe que a redução de velocidade aumenta a inclinação da moto o que pode ser compensado aliviando o contra-esterço (como falei acima).
Um outro ponto a ser ressaltado é o que diz respeito às frenagens: o freio que pára a moto é o dianteiro mas só o faça com a moto alinhada e sem inclinação. O freio traseiro deve ser utilizado para manobras em baixas velocidades (abaixo de 20 km/h) e ao ser utilizado em velocidades maiores deve ser acionado de forma a não bloquear a roda. Caso a roda traseira seja bloqueada em alta velocidade, mante-la bloqueada e controlar as "abanadas" da moto com o olhar fixado na frente para onde queremos que a moto vá. Já o freio dianteiro, se bloquear ou ameaçar bloquear, aliviar e rápidamente voltar a pressionar a manete simulando o efeito do sistema ABS.

Algumas dicas que me foram de extrema utilidade:

1) Cuidado com a roupa. Não basta "segurança", conforto é fundamental. Sinta-se com os movimentos soltos e mantenha o corpo arejado. O calor e o vento aceleram o processo de desidratação e isso associado a uma roupa tipo "armadura medieval" pode causar sérios problemas afetando inclusive seus reflexos.

2) Mantenha sempre o olhar em um ponto dois ou três segundo à frente de onde você está e planeje o que precisa fazer para alcança-lo. Seu olhar deve ser como os faróis de um carro em movimento, sempre iluminando à frente. Fazendo isso automáticamente você reduz em muito a possibilidade de imprevistos.

3) Observe a respiração. Tendemos o contrair os músculos e prender a respiração quando estamos tensos. Isso é altamente prejudicial para a pilotagem.
Em momentos de "stress" respire como se estivesse fazendo um exercício físico: inspire pelo nariz e expire pela bôca.

4) O olhar é um dos ítens de maior importancia na pilotagem de uma motocicleta. A moto vai para onde você olha. Principalmente em curvas, após determinar o traçado da mesma, jamais olhe para o acostamento, guard-rail, carros em sentido contrário ou coisa que o valha. E por falar em curva, JAMAIS desista de uma curva depois de iniciada ainda que a pedaleira arraste no chão, olhe para o ponto de saída use o contra-esterço e deixe a pedaleira se dissolver no asfalto.

5) Pratique sempre que possível, inclusive fazendo exercícios mentais: à noite, em seu quarto, sente em uma cadeira e imagine que você está na sua moto percorrendo uma estrada, pense em diferentes situações e o que você faria para sair delas. Vale a pena.

6) RETROVISOR, RETROVISOR, RETROVISOR. Olhar o espelho retrovisor salva vidas.

No mais uma boa viagem e informe os resultados.

Abração,

Hélio


Hélio Rodrigues Silva 02/09/2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Segurança - Mortes avançam sobre duas rodas


Grande Moçada,


O Globo de 13/04/2011 publicou uma reportagem intitulada “Mortes avançam sobre duas rodas”.

Os números realmente são assustadores mas, para variar, causas não são investigadas, soluções não são propostas e desculpas são a especialidade da casa. 
Li um artigo do Sandro Andriow na Moto.Sport de 14/01/2008 onde ele faz um resumo de três estudos desenvolvidos por Universidades brasileiras sobre acidentes com motocicletas. Quem quiser basta pesquisar no "gugol". 


A título de curiosidade algumas constatações:

1) 86 % dos acidentados com idades até 40 anos.

2) 68 % dos acidentados com idades entre 18 e 24 anos.

3) 85 % dos acidentes com motos até 125 cc.

4) 96 % dos acidentes com motos até 200 cc.

5) 24 % dos acidentados estavam alcoolizados.


Na minha opinião já existem leis suficientes, o desafio é cumpri-las. O grande problema é que pouquíssimos motociclistas receberam treinamento adequado para conduzir uma motocicleta em segurança.


1) A maior barbaridade começa com o exame do Denatran onde os candidatos devem conduzir a motocicleta em um circuito padrão, utilizando uma técnica absurda (em 2ª. Marcha e com o freio traseiro proibido) que torna IMPOSSÍVEL conclui-lo em uma moto de grande porte. A solução “genial” encontrada é utilizar uma 125 cc. Após a aprovação no exame o cidadão está autorizado a pilotar qualquer moto e qualificado a exercer a função de motociclista profissional. É mais ou menos como quem tira sua carteira de motorista em Fusquinha e já pode sair dirigindo taxi, ônibus interestadual com 50 passageiros ou mesmo um “treminhão” de 70 toneladas.

2) As moto-escolas não ensinam absolutamente nada pois a prioridade é preparar alunos para completar o circuito do Denatran, ainda que sub-utilizando os recursos da moto. Aspectos como a correta utilização dos freios, manobras em baixas velocidades e grandes inclinações, contra-esterço, importância do olhar e da respiração na pilotagem, regulagem da moto segundo o biotipo do piloto (banco, comandos, para-brisas, etc), vestuário, etc... são práticamente ignorados.

3) Por outro lado, os próprios motociclistas são, muitas vezes, avessos a novos ensinamentos, afinal são habilitados; pilotam há vários anos; inúmeras quedas e incontáveis cicatrizes, exibidos orgulhosamente, dificultam o reconhecimento de deficiências em fundamentos de sua pilotagem. Manter um programa de treinamento é algo impensável para a grande maioria. Assumir a responsabilidade por suas lambanças procurando descobrir onde errou para corrigir é algo não muito comum.


Não me conformo quando tomo conhecimento de acidentes com um dos nossos, é como se fosse com um dos meus filhos ou com meu irmão. Fico arrasado. De qualquer forma acho que podemos reduzir em muito esses números. Comecemos deixando a arrogância, as desculpas e os resmungos de lado fazendo uma auto-crítica de nossa pilotagem, principalmente das situações de risco já vivenciadas e como evita-las no futuro. É de grátis e pode salvar nossas vida.


Abração,

Hélio Rodrigues Silva 14/04/2011

Segurança - Motociclistas x Motoqueiros

Grande ALLzaço,

Sempre me perguntam qual a diferença entre motociclista e motoqueiro. Certamente poderíamos escrever um livro sobre elas mas prefiro resumir da seguinte forma:

MOTOCLICLISTA: está constantemente buscando ELIMINAR/REDUZIR os riscos associados à condução de uma motocicleta. MOTOQUEIROSao contrário, se não houver riscos eles inventam.

O grande problema é que até mesmo motociclistas tem seus "momentos motoqueiros" e quando a casa cai reagem da mesma forma: a culpa sempre é do pedestre/ciclista/motorista, o pneu Dunlop é uma bosta, tinha areia/óleo na pista, o rolamento da roda travou, o cara abriu a porta, etc, etc. A única coisa que não fazem é assumir a responsabilidade pela cagada e examina-la para identificar onde errou e buscar aprender como fazer corretamente.
É impressionante a quantidade de motociclistas que ignoram o contra-esterço, a forma correta de frenagem de uma moto, da condução de uma moto em uma curva, da distancia mínima para um veículo à frente e, o que é trágico, sequer se interessam pelo assunto. A maioria se julga dona de um talento inato o que , automáticamente, os torna rivais de Agostini, Mamola e Valentino, com uma pequena diferença: apesar das loucuras nas ruas e estradas borram-se de medo de entrar em uma pista e competir de verdade. Bem mas isto é papo de um velho cagão que pretende continuar buscando eliminar  ou reduzir os riscos na pilotagem da Thaís. Por outro lado rezo diariamente para que meu "momento motoqueiro" ocorra à noite quando estou dormindo.

Abração a todos,

Hélio Rodrigues Silva 14/04/2011