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quarta-feira, 23 de maio de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 6a. parte


Grande mocada, acabou o recreio. Enquanto estavamos trabalhando duro para dar condicoes minimas de seguranca para que as Goldwings encarassem uma Estrada, faziamos pequenas incursoes por cidades proximas a Charlottesville, tais com Orange, Staunton, Winesboro, Richmond e outras menos votadas para testar nossas modificacoes e verificar o grau de confiabilidade das maquinas. A unica viagem, ate entao, foi a minha trazendo a moto de Detroit, por sinal com serios problemas de freio. Foi uma luta trazer a danada com o disco dianteiro esquerdo arrastando por 750 milhas. Alias freio e’ um assunto em que ficamos doutores, principalmente no que se refere `a Goldwing. Como todo motociclista sabe, quando o freio bloqueia roda traseira a acao a ser tomada e’ manter o freio bloqueado, ja’ quando o freio bloqueia a roda dianteira, a acao e’ inversa, ou seja solte o freio e volte a pressiona-lo em seguida. Se voce tem um pedal que aciona o freio traseiro e o freio dianteiro (o disco da direita) simultaneamente, como e’ que vocefaz  para segurar um e liberar outro ?  Os japoneses, querendo auxiliar a grande maioria que nao sabe utilizar os freios, criaram o pior dos mundos  ja’ que na epoca nao existia o ABS. Bem mas esse e’ um assunto chato, o fato e’ que trabalhamos como uns condenados mas as motos ficaram razoavelmente seguras mas obrigando-nos, em contrapartida, a adotar algumas acoes que minimizam os riscos, por exemplo: aumentar a distancia para os veiculos `a frente, abusar de usar a reducao de marchas e outras manobras que tem nos mantido incolumes.


Nessas andancas por perto participamos de 2 encontros de HD, um em Orange e outro em Staunton. Neste ultimo havia um lanche (barbecue with iced tea) que custava 5 dolares. Ao chegar perguntei `a gerente da Harley se havia alguma ”ATM machine” poise eu precisava de grana ara pagar o tal de churrasco. Ela me pediu desculpas por nao ter a tal maquina cuspidora de dinheiro e pediu-me para aguardar. Foi ate o escritorio e voltou de la com uma nota de 10 dolares como cortesia da HD. Quando fui la for a dar a noticia ao Cyro ele estava com um mecanico da Harley (que falava ao telephone) ao lado de sua Goldwing. Nao e’ que ele foi pedir uma “dica” de como soltar a roda da moto e o mecanico, apos olhar, ligou para uma concessionaria Honda (em outra cidade) para confirmar !  Ali eu tive a certeza de que estava no primeiro mundo.
















Em Orange a recepcao nao foi menos amistosa. Apos uma curta mas emocionante viagem por uma estradinha cheia de curvas e passando por inumeras propriedades rurais, onde o risco de um trator, ou um cavalo surgir `a sua frente e’ consideravel, chegamos ao dealer da HD. O proprio dono nos recebeu, um senhor de uns 80 anos mas entusiasta e praticante do motociclismo. Deu-nos inumeras dicas para as viagens e convidou-nos para um evento anual da concessionaria (em junho) onde a policia fara um mini-rodeio com seus competidores. Vou tentar inscrever o Cyro sem ele saber e depois digo que sou o instructor dele, hehehehehehe.














Semana passada, com tudo pronto para largarmos, o motor de arranque da moto do Cyro pifa. Nao vou entrar em detalhes mas conseguimos resolver com o auxilio de um velho corredor de motos que matou a charada e nos deu um solenoide usado que trocamos e o arranque ressuscitou.  Logo resolvemos botar o pe’ na Estrada pois estavamos desconfiados que tudo isso era frescura das motos. O fato e’ que domingo, por volta das 11 horas partimos celeres para a Blue Ridge Parkway e suas promessas de aventura.  Foi entrar na Estrada e o desempenho das motos comeca a melhorar.












O  sol que nos obrigava a pilotar em mangas de camisa. O Cyro ofereceu-me bloqueador solar mas eu desdenhei: “-Quem pega o sol de Cabo Frio nao tem medo desse solzinho daqui.”  `A noite arrependi-me amargamente disso. Torrado como um camarao e um principio de desidratacao (alem do mais, como todo velho, nao tenho sede). Quando paramos no hotel em Roanoke so quis saber de dormir. No dia seguinte, ja melhor e levando duas garrafas de Gatorade, apontamos a proa das maquinas em direcao a Blowing Rock, nossa proxima etapa, e partimos com receio da chuva anunciada para a tarde.  As paisagens se sucediam de uma maneira que e’ impossivel cair na monotonia, por outro lado, a confraria dos motociclistas e’ incrivel, todos fazem questao de se cumprimentar e se auxiliar, nao importa a marca, o modelo e o valor da moto pois antes de mais nada sao todos motociclistas.















Como nossas paradas sao frequentes, para esticar as pernas e para tirar agua do joelho (em consequencia da idade, da pessima ergonomia das Goldwings e do remedio para hipertensao), acabamos por prejudicar nossa media horaria, e nesse momento, o meu amigo Cyro esquece o valor das multas e a nossa idade e enrosca o punho com vontade, naturalmente que tenho que fazer o mesmo para nao perder o cara de vista. ‘E um tanto arriscado mas lindo de se ver : duas Wings riscando o piso imaculado da Blue Ridge Parkway com as bracadeiras do escapamento, ainda por cima pilotadas por dois velhos que se comportam como dois adolescentes com pouco siso como se dizia antigamente, hoje seria:  “dois velhos com bosta na cabeca”.












Verdade seja dita, conseguimos chegar a Blowing Rock num horario decente e a chuva so nos pegou ja’ no estacionamento do hotel.
Apos o jantar estudamos o percurso de hoje (22/05/2012) e chegamos a conclusao que pegariamos chuva na parte mais alta da Estrada se saissemos tarde. Nao tinhamos muito o que fazer. Saimos o mais cedo possivel para passer antes da chuva mas consertos na Estrada atrasaram-nos bastante, alem disso paramos para almocar em um restaurante mexicano com aquelas musicas de “mariaches”, aquilo da’ um sono desgracado.












Acabamos por sair tarde mas foi bom por termos a oportunidade de ver algo de que jamais me esquecerei. Estavamos parados para mais uma sessao de alongamento e xixizamento quando param duas motos: uma Honda speed e uma Touring, se nao me engano Yamaha com um casal de coroas (mas bem coroas mesmo, assim como como nos ). A senhora pilotava a Honda (linda a moto com motor em V), apos nos indicar onde parar para almocar montaram na moto e sairam. Nos saimos imediatamente atras. So’ pela maneira como a coroa saiu pedi a Deus que o Cyro nao tentasse segui-la pois a velha filadaputa tocava uma barbaridade e o velho pancudo nao ficava para tras (esqueci de dizer que o coroa tinha uma barriga momesca). Qual o que, o Cyro saiu que nem um alucinado e eu tentando acompanha-los, a estrada  naquele trecho lembra muito a Av. Niemeyer mas a velha estava possuida, voce nao via luz de freio em nenhum momento, ela sabia o que estava fazendo com aquela moto. Para mim era coisa de profissional. Depois de duas ou tres curvas em que tive a sensacao de ouvir o Ayrton Senna conversando  com o Elvis Presley sobre a importancia do rock na velocidade  entreguei os pontos: “-A velha e’ melhor do que eu e ela que va’ para o diabo que a carregue com sua moto e com aquele pancudo gay”. Claro que o cara nao era gay mas naquele momento me fez um bem enorme calunia-lo. O Cyro, nao sei se pensou o mesmo ou ficou preocupado comigo, tambem voltou ao ritmo normal. Entendam que ritmo normal nao  e’ daqueles que ficam murrinhando nao, andamos numa velocidade acima da media da turma daqui, principalmente nas curvas mas a velha era o bicho. Mais a frente voltamos a encontra-los (ambos com um sorriso zombeteiro) e ela falou para o Cyro que sua vida era em cima de uma moto viajando. Despedimo-nos e tomamos nosso rumo com auto-estima um pouco avariada mas fazer o que ? O raio da velha pilota pra cacete e nao posso fazer nada a respeito disso, apenas reconhecer e reverenciar uma verdadeira virtuose.
Por tudo isso encontramos a chuva no caminho e quanto mais subiamos mais ela piorava e a temperatura caia pois estavamos  atravessando nuvens. Passamos a tomar muito cuidado com as condicoes da Estrada pois neste trecho os tuneis se sucedem e as condicoes de entrada e saida deles variam enormemente. 








Quando comecamos a descer, ja’ proximos a nosso destino, a chuva parou e assim chegamos a Cherokee, ponto de partida para inumeras opcoes que ainda estamos avaliando. Quando o Cyro mencionou o Tail of the Dragon juro que pensei na velha me ultrapassando miseravelmente na curva mais dificil. So’ me resta dormir e sonhar que estou atirando com uma 12 nos pneus daquela Honda com motor em V.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 5a. parte

O tempo esta terrivel: frio com possibilidade de neve ao inves de calor nesta epoca do ano. Acho que a hipotese, ja’ que teoria nao e’, do “aquecimento global” foi para o brejo depois que seu “muso” , o tal de James Lovelock, confessou em entrevista a Ian Jonhston publicada no www.msnbc.com em 23/04/2012, que estava sendo alarmista e pediu desculpas, deixando o bestalhao do Al Gore e seus eco-chatos pendurados na brocha. O fato e’ que ainda nao podemos fazer viagens mais distantes enquanto o tempo nao firmar. Mas isso tem seu lado positivo, alem de curtirmos mais a familia (ja me considero parte) estamos colocando as motos `a nossa feicao.
Como acontece com as HDs no Brasil, aqui tambem as motos de grande porte cusam medo a seus proprietarios que as deixam encostadas e as utilizam, quando isso ocorre, apenas para pequenos percursos e/ou para impressionar os vizinhos. Com isso, encontramos motos com quilometragens baixissimas porem com a manutencao deficiente, problemas tais como pincas de freio com pistons emperrados, caixas de direcao desreguladas, calibragem de suspensoes erradas, altura de para-brisas sem o menor criterio, alem de um outro problema: os “gatilhos” Aqui, como todos sabem, o preco da mao de obra e’elevado o que, alem de desestimular manutencoes em profissionais gabaritados, estimulam os “mexanicos” de fim de semana. O que voce descobre de lambanca nao e’ pouca coisa. No meu caso nao tive opcao a nao ser viajar para Detroit, montar na minha neguinha e fazer uma viagem de quase 1.200 km sem nenhuma revisao. A unica coisa que fiz foi parar a bichinha com 2 ou 3 milhas para ajustar o guidom, so’ quando cheguei a Charlottesville que ela fez companhia `a Aspencade do Cyro na UTI. Tambem revisamos tudo: velas, cabos de vela, corte dos para-brisas para dequa-los `a altura de cada um de no’s. Aqui o pessoal tem mania de olhar por dentro do para-brisas da moto. Isso ‘e totalmente errado, pois na chuva e a noite sua visao fica extremamente prejudicada. Assim e’ que o correto ‘e a altura do para-brisas ficar na linha da base do nariz do piloto.
Revisamos tambem o sistema eletrico (fuziveis errados aos montes), suportes de motor soltos, escapamento vazando, regulagem de suspensoes, regulagem de manetes, sangria dos freios, etc… A cada melhoria implementada saimos para testar o comportamento das motos e nossos passeios sempre passam por concessionarias de moto, lojas de ferramenta e assemelhados.
Na 3a. feira apos uma serie de melhorias resolvemos dar um role’ para sentir as motos. Acontece que a medida em que vamos nos familiarizando com o local ficamos mais abusados. Como temos preguica de manobrar a moto com a mao para sair do estacionamento da casa, resolvemos dar a volta pelo gramado nos fundos da casa. Tinha chovido na vespera, a grama estava molhada e eu, do alto da minha incompetencia deixei a Camila rebolar que nem a Globeleza e me jogar no chao. O Cyro ja tinha saido e como eu demorava ele voltou para rir e me ajudar a levantar a insubmissa motocicleta. Mas o melhor estava por vir, na volta, o Cyro elogiando a moto o tempo todo vinha me falando que iria encostar a pedaleira da Sabrina no asfalto. Ao entrarmos numa rua bem tranquila, vi que ele acelerou e deitou a moto com vontade, o problema e’ que vinha um grupo de gringos (umas 3 ou 4 pessoas com dois cachorroes enormes) ocupando 2/3 da pista da direita e no terco restante havia uma enorme poca d’agua (comecei a rir antes da hora). O Cyro abriu a curva e implementou a mao inglesa na Virginia, ele fez a curva pela contra-mao, entre uma pick-up e o meio fio. O pior e’ que eram vizinhos da filha do Cyro, que ja nos olham desconfiados fazendo mecanica nas motos e falando em um idioma estranho.


















Mas as motos estao ficando excelentes, so’falta corrigir o grande problema que a engenharia da Honda lancou em 1984, os freios conjugados: a manete de freio pressionada, aciona o disco dianteiro ESQUERDO. O pedal de freio traseiro pressionado, aciona o disco traseiro e o disco dianteiro DIREITO.
Bem, como todos sabem, ou deveriam saber, quando a roda traseira e’ bloqueada em uma frenagem ela deve PERMANECER bloqueada pois a tentativa de se alinhar com a roda dianteira (que estaria girando) faria a moto perder o controle. Ja’ a roda dianteira bloqueada, o procedimento e’ aliviar a pressao na manete e rapidamente voltar a pressiona-la simulando a acao do ABS. Com isto temos acoes antogonicas impossiveis de ser executadas com um freio que comanda, simultaneamente, a roda dianteira e a traseira. Isso sem falar na impossibilidade de utilizar a tecnica de controle da oscilacao da roda traseira atraves de acelerador, embreagem e freio traseiro, como exigiro pela tecnica da policia maericana. De qualquer forma estamos trabalhando em uma solucao, descobrimos que ate 1983 as Wings vinham com o freio normal, so mudando em 1984, mas os quadros permaneceram os mesmos. Isso nos levou a encomendar no e-Bay as valvulas da 1983 e conseguimos descobrir onde afixa-las nas nossas motos.

Amanha vamos sair atras dos mangotes de freio e creio que em breve ja teremos os freios decentes.



sexta-feira, 4 de maio de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 4a. parte

Charlottesville, VA


Grande mocada (perdoem cedilhas e acentuacao faltante, e’ o treclado), continuando com as travessuras que a 3a (ou sera 4a. ?) idade nos permite, apresentei-me na Albermale High School para fazer o curso Basico de Motociclismo da MSF - Motorcycle Safety Foundation. A MSF e’ uma fundacao mantida pelos grandes fabricantes de motocicleta nos Estados Unidos:  Harley Davidson, Honda, Yamaha, KTM, BMW, Kawasaki,  Suzuki, Victory, etc. Seu objetivo e’ trabalhar para que o motociclismo se torne uma atividade cada vez mais segura e com isso reduzir drasticamente o numero de acidentes envolvendo motocicletas e, por consequencia, todos os seus impactos (sociais e economicos).   A MSF tem convenios com quase todos os Estados e ministra cursos, palestras e treinamentos alem de testes de avaliacao que servem, na maioria dos estados, como prova de habilitacao. Meu curso era dividido em 3 dias e em uma turma com 12 alunos com 2 instrutores.. No primeiro,  sexta-feira, uma aula teorica com exercicios em grupo e duracao de 4 horas. Nos dois dias seguintes, sabado e domingo,  aulas praticas das 7 da manha ate as 13 h. Achei excelente a didatica utilizada e conheci novas formas de exercicios. O que me impressionou foi a forma como os alunos levam a serio os ensinamentos, o respeito aos horarios e, principalmente, aos demais alunos pois nao vi uma so “gozacao” quando alguem caia (e nao foram poucos) ou errava um exercicio. No ultimo dia, ao final dos exercicios, foi montado um circuito de avaliacao que teriamos de cumprir recebendo a pontuacao dos dois instrutores. Em seguida, uma prova escrita com 50 questoes onde se exige um minimo de 80 % de acertos. Bem, consegui meu certificado e quando tiver uma carteira de motorista da Virginia poderei averbar a de motociclista. De qualquer forma ja’ posso utiliza-la para reduzir o custo do seguro da moto.



Eu ja conhecia a MSF e acompanho seu site com certa frequencia. A paixao dos Americanos por estatisticas ajudam a identificar, por exemplo, as maiores causa de acidentes com motociclistas e a desenvolver procedimentos para evita-los. Identifica tambem as areas mais atingidas dos capacetes em acidentes e com isso fazer recomendacao a usuarios e, eventualmente, a fabricantes.

O curso e’ pago (110 dolares) mas todo o material e’ disponibilizado pela MSF: apostilas, motos e gasolina (com um monte de octanas que da’ ate’ vontade de beber). No fim das contas, com cerca de 220 reais voce recebe um senhor treinamento e sai com sua carteira na mao. Simples assim.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

AVENTURAS GERIATRICAS - 3a. parte


Continuando com nossas atividades aqui na terra de Marlboro, apos  3 dias trabalhando para eliminar os problemas decorrentes de falta de uso e excesso de mau gosto na Wing que, por sorteio, coube ao Cyro, e que agora esta que nem pinto no lixo com sua moto,





eis que e’ chegada a hora de tio Helio se mandar para Detroit e pegar a segunda Wing.  A coisa era aparentemente simples: um voo de Charlottesville a Detroit com uma conexao em Washington DC. Chegada prevista em Detroit as 13:30 hs, encontro com o vendedor da moto, receber a moto e iniciar a viagem para Charlottesville (cerca de 600 milhas) as 14:30 hs no maximo. Bem, para inicio de conversa quase fui preso no aeroporto de Charlottesville. Acontece que eu, macaco velho que sou e orientado pelo Comandante Cyro, levei algumas ferramentazinhas basicas para a viagem de volta, ferramentas estas que dispararam um alarme que parecia anunciar o apocalypse. Imaginem o espanto causado em um aeroporto quase rural e com pouquissimo movimento . Apos explicar o motivo das ferramentas recebi a sugestao de despacha-las como bagagem o que iria me custar 25 dolares. Como apenas 3 chaves excediam o tamanho maximo permitido para bagagem de mao e como as 3 custavam menos de 15 dolares, joguei-as no “garbage” (lixo em linguagem crista) e pronto, problema resolvido. Por enquanto, hehehehehe.

Apos embarcar com um atraso de quase 1 hora devido ao mau tempo, chego em Washington e perco a conexao por apenas 3 minutos. O proximo voo so sairia dai a 5 horas. Isso alterava todo o meu minucioso planejamento. Nesse ponto resolvo acionar  meus anjos da guarda: Cristiane e Bob, filha e genro do Cyro e o proprio Cyro. Eles refizeram todo o planejamento junto ao vendedor da moto de forma que quando cheguei a ao aeroporto de Detroit encontrei uma pickup Chevy branca rebocando uma Goldwing negra como o bigode do Sarney. Apos me apresentar ele, acompanhado  da esposa e de um amigo, levou-me ate um patio onde descemos a moto e ouvi a pergunta mais sem nexo de toda a minha vida: “-Voce quer dar uma voltinha ?”. O que responder, depois de sair de Cabo Frio e chegar na fronteira com o Canada para encontrar a danada da Camila ? Nao disse nada, subi na moto, fiz cara de motociclista, acionei a partida e sai usando toda a tecnica para evitar “micos” fora de hora. Algumas curvas para direita, outras tantas para a esquerda e deu para perceber que me entenderia muito bem a danada da neguinha. Despedi-me do Andy, o vendedor, coloquei minha bagagem na moto, coloquei a placa da Virginia que levei comigo (quando penso na burocracia do Brasil chego a tremer de vergonha) e fui em busca de um hotel pois era sabado,  20:30 hs e uma temperatura  de 8 graus centigrados.  



Domingo, apos um lauto café da manha, instalo o suporte para o GPS e percebo que a moto nao tem um isqueiro onde acoplar o carregador do GPS, afinal a moto e’ o modelo Interstate onde essas facilidades nao existem, diferente da moto do Cyro, uma Aspencade, que tem nada menos de 2 isqueiros alem de dezenas de outras comodidades. Bem, fazer o que alem de botar o pe’ na Estrada ? Sai de Detroit seguindo o GPS (que ainda tinha carga) e debaixo da maior ventania pego o rumo de casa. Nao andei mais do que duas milhas e meus bracos comecaram a doer mais do que a velhice justificava: o guidon estava posicionado para para uma pessoa de baixa estatura, o que era o caso do ex-proprietario, que alem de baixinho tinha o habito, segundo me contou, de colocar um chapeu de cow-boy, os pes naqueles ridiculos estribos que colocam no mata-cachorro alem de um charuto ( este ultimo creio que na boca)  e ficar dando voltas no quarteirao para impressionar os vizinhos. Parei a moto em um posto de gasolina, debaixo de um vento gelado cortante e com as ferramentas que levei consegui regular o guidon a meu gosto. A pilotagem ficou muitissimo mais gostosa, embora estranhando um pouco fui me soltando e em pouco tempo estava acompanhando o fluxo a 70 / 75 milhas sem problemas e com bastante folga. As curvas comecaram timidas ate que encontrei o ritmo certo e passaram a ser feitas em velocidades compativeis com a qualidade das estradas. O que da’ para perceber e’ que, embora seja uma moto muito facil de pilotar nao e’ pareo para uma HD Touring em curvas pois as Wings precisam inclinar bem mais do que uma HD para fazer a mesma curva, provavelmente em funcao de seu Caster maior. Isso sem falar no som do motor pois ai’ seria covardia.

Nesse primeiro dia planejei costear o lago Erie e proximo a Cleveland pernoitar. Quando estava proximo ao meu descanso o Cyro me chama no radio  e avisa para eu fugir o mais rapido possivel daquela regiao pois a metereologia previa gelo e neve.  Ele entao deu-me uma rota que inseri no GPS e tratei de seguir, eram estradas secundarias que cortavam uma area rural belissima de Ohio mas nao cheguei a curtir a paisagem pois acabou a carga do danado do GPS. Comprei um baita mapa de papel e parava de vez em quando para encontrar a rota que o Cyro ia me ditando pelo radio como se fora um controlador de trafego aereo mal-criado.   O fato e’ que, apos 288 milhas,  consegui chegar a cidade de Mansfield (Ohio) e me aboletar no primeiro Super 8 que encontrei.

No dia seguinte, segunda-feira, debaixo de muito vento e uma temperatura de 8 graus centigrados,passei num Wall Mart, comprei um isqueiro automotivo, alguns fios, fita isolante e montei uma “gambiarra” para carregar o GPS.



O unico inconveniente e’ que tinha de parar a moto para fazer isso. De qualquer forma  iniciei a perna em direcao a Beckley (West Virginia), onde cheguei apos 360 milhas em estradas principais e secundarias conforme a orientacao que recebia e apos checar o GPS que era desligado logo em seguida para poupar bateria. Na chegada em Beckley a temperatura estava a 1 grau centigrado e a previsao para a noite era de 3 graus negativos. 



Terca-feira, acordo cedo, ligo a “gambiarra” no GPS enquanto tomo café, espero ate as 10 horas para esquentar um pouco o tempo. Essa era a ultima perna e a mais problematica pois iria atravessar as montanhas, onde poderia haver gelo, e entrar na Virginia. A Estrada e’ maravilhosa, em meio a uma area preservada com paisagens de tirar o folego. O asfalto perfeito e curvas para quem gosta e sabe faze-las, modestia aa parte. 




 Por sorte o sol saiu bem forte e nao encontrei gelo, sentia-me o dono da Estrada, nenhum motociclista encontrado, curvas para a direita e para a esquerda como manda o figurino: olhos no objetivo, rotacao do motor la nas alturas, contra-esterco, peso na pedaleira do lado interno da curva e um sorriso nos labios sabendo que estava fazendo um belo trabalho. Foi assim toda a viagem ate Charlottesville, foram 750 milhas percorridas, na maior parte do tempo com temperaturas em torno de 8 graus e ventos laterais. Nao esta de todo mau para um septuagenario, hehehehehe.
Quando chego o Cyro me da a noticia: ”-Sua moto esta sem o selo de vistoria obrigatorio, temos que providenciar isto.”. Meu Deus, pensei, pagamento de Duda, agendamento de vistoria pela internet, aguardar a emissao do DUT/Recibo, etc e tal. Principalmente etc e tal.  Acho que nem dormi direito a noite, no dia seguinte, ansioso mal tomo café e fico perguntando ao Cyro se devo procurar um despachante (juro que pensei ate mesmo em constituir um advogado pois se no Brasil  era toda aquela paraphernalia, imaginem aqui !). Que nada, apos tomar café calmamente, o Cyro pegou o carro e mandou-me segui-lo ate uma oficina proxima homologada pela policia de Charlottesville, entramos, mostrei os documentos da moto, um mecanico fez a vistoria, colou o selo na moto, paguei 12 dolares e PRONTO a vistoria estava feita. Levou mais tempo o caixa fazer o troco do que a revisao propriamente. Eles tem que vir ao Brasil descobrir como se faz...





Bem, agora tenho que parar para estudar. Sim, voces entenderam corretamente, hoje na hora do almoco o Cyro e a Cristiane chegaram com um presente para mim: inscreveram-me em um curso de motociclismo do Departamento de Transito da Virginia e que comeca a amanha com a duracao de 3 dias (2 dias aulas teoricas e 1 dia aula pratica) com direito a certificado que me garante desconto no seguro da moto.

Depois conto o resultado de mais esta peripecia.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aventuras Geriatricas - 2a. Parte

Grande Mocada, 

Apos uma viagem de 24 horas, com direito a 3 conexoes, chegamos a Richmond onde o genro do Cyro, o Bob, nos esperava. Antes de partirmos para Charlottesville ainda demos uma passada no museu aeronautico de Richmond, afinal eu, o Cyro e o Bob somos  amantes de maquinas voadoras, principalmente as que fizeram historia.



Chegamos a casa do Bob e a primeira coisa que fizemos foi examinar a Goldwing Aspencade que coube ao Cyro. Confesso que a primeira impressao foi das piores:  um monte de equipamento cafonerrimos, bateria quase morta, sujeira impressionante, a impressao que tivemos foi que a moto ficou parada por meses em algum galpao. No dia seguinte, mal instalamos o carregador de bateria comecou a chover. Nao nos restou alternative senao colocar a moto na varanda da belissima casa da filha do Cyro (acho que seremos expulsos a qualquer momento).


Trabalhamos que nem uns loucos para arrancar toda a parafernalia que o velho dono havia colocado. Toneladas de fios que ligavam nada a coisa alguma foram retiradas. Plataformas que impediam engatar as marchas com precisao foram jogadas no lixo.

No dia seguinte o tempo deu uma tregua e conseguimos descobrir o afogador e ligar a bendita Goldwing.  Fumaceira descomunal, motor rateando e eu e o Cyro com cara de choro, mas um artista nao se impressiona com facilidade (como diria Cumeeira) e fomos a luta. A primeira coisa era decidir  quem daria a primeira volta. Disputamos no palitinho e como perdi fui obrigado a faze-lo. A moto estava uma bosta, rateava direto e estava sem forca nenhuma. Paramos de ver a parte estetica e de conforto e fomos para a mecanica: trocamos velas (apos retirar agua em torno das mesmas), reapertamos os cabos de vela (dois estavam frouxos), fizemos um reaperto geral na parte mecanica, regulamos o guidom e voltamos ao testdrive. Ah, agora sim parece uma motocicleta. A bichinha ate que nao faz feio mas esta longe, muitissimo longe de uma Harley Davidson touring. E’ ate sacanagem compara-las. A pilotagem e’ muito facil, a danada inclina uma barbaridade nas curvas (mesmo nas mais suaves) mas ainda assim nao faz curva como a HD Ultra. O painel, apesar de 1984, e’ digital. As suspensoes a ar, dianteira e traseira, podem ser reguladas independentemente com a moto em movimento (ela tem um compressor eletrico). O sistema de som tem um tapedeck alem de AM/FM tradicionais. A bichinha ainda tem um radio faixa do cidadao e sistema de intercomunicacao. Bem, o fato e’ que o Cyro esta com um sorriso de uma orelha a outra.


Eu, pelo meu lado, comeco amanha a epopeia para trazer a minha moto que esta em Detroit. O cara que  vendeu a minha estara me esperando na saida do aeroporto de Detroit, com uma F250 branca trazendo uma Goldwing Interstate 1986 negra  a reboque. Acho que nao e muito dificil de encontrar, nao ? Sao quase 900 Km ate Charlottesville, a ideia e’ o Cyro sair na segunda-feira e encontrar-me em algum lugar entre Detroit e Charlottesville. Se vai dar certo ?  Nao sei nem quero saber mas que vai ser maravilhoso, ah isso posso garantir. Continuem torcendo pela gente.

Ate a proxima.   

sábado, 14 de abril de 2012

AVENTURAS GERIÁTRICAS - 1a. PARTE

Amigos, parceiros, credores e cobradores, sinto informa-los que estou iniciando mais uma etapa do projeto “Torrando a herança dos filhos”.

Neste momento, como diria o nosso queridíssimo e jamais suficientemente incensado Apedeuta, estamos nos preparando para cruzar o Atlântico rumo à terra de Marlboro. Dentro de algumas horas estaremos em Charlottesville (Virginia) onde eu e meu amigo Cyro mostraremos aos gringos como dois septuagenários conseguem se equilibrar em cima de um triangulo apoiado em um dos vértices (é mais ou menos como me sinto em cima de uma moto). Lógicamente isso não vai acontecer logo de cara, primeiro temos um baita trabalho de casa para fazer mas, acreditem, vocês também iriam adorar nos ajudar na tarefa.

Indo direto ao ponto e sem fazer segredo, o trabalho que temos de realizar, antes de sair pelas estradas maravilhosas da Gringolandia, é fazer uma revisão em grande estilo de uma Honda Goldwing Aspencade 1984 e voar até Detroit para pegar outra Honda Goldwing Interstate 1986.









Como essas naves intergalácticas apareceram na história ? Fácil, o locutor que vos fala sonhou com elas quando por ocasião da Ablação/Badalação, lembram ? Sai do sono anestésico, comecei a fazer contas e cheguei a conclusão que se fosse alugar uma HD por mais de duas semanas sairia mais barato comprar uma moto velhinha (não tanto quanto eu, lógico) e na hora de voltar à república do bananão jogar a criatura Cannyon abaixo em grande estilo. Conversando com o Cyro resolvemos comprar duas motos. As HD ficaram logo fora de cogitação, dado o seu preço, no entanto queríamos motos semelhantes às nossas tourings.  Meus caros, estava difícil mas encontramos as motos. Uma delas nos remete de imediato ao grande amigo e cafeicultor (produtor do famoso Café Jacu Dourado) Pedrão Midas, a danada é DOURADA, e pertencia a um senhor com 94 anos de idade. Como ele estava mais surdo do que eu os filhos resolveram vender aS motoS do velho. Tudo bem, o cara é quase centenário mas tem classe. Observem só as fotos do sacana do velho.






A outra, uma 1986 negra como o bigode da múmia do Maranhão, está em Detroit e teremos que busca-la. O planejamento está da seguinte forma (se não mudar mais): chegaremos à Charlottesville na 3ª.feira, descansamos e na 4ª. terá início a revisão da Sabrina. Aqui abriremos um parênteses: fiquei olhando horas para as fotos da moto e o que me chamava a atenção era o volume da traseira da moto, pensei um pouco e cheguei a conclusão que a única japonesa de bunda grande que conheço é a Sabrina Sato, o batismo foi imediato, fecha parênteses. Na 5ª. ou 6ª., a depender do resultado da revisão, começamos a rodar com a moto pelas proximidades. No sábado embarco para Detroit, levando documentos e a placa debaixo do braço, e trago a moto para Charlottesville (cerca de 900 Km) via Front Royal onde o Cyro vai me aguardar com a Sabrina para voltarmos juntos pela Skyline Drive, uma maravilhosa estrada cheia de curvas que atravessa o Shenandoah National Park.






É meus amigos, torçam pela gente pois o sacana do horizonte teima em se afastar cada vez mais porém não entregamos os pontos: “quem tem medo de cara feia não amarra porongo nos tentos” (Rodrigo Severo Cambará)