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sexta-feira, 29 de julho de 2016

CANADA E ALASKA DE MOTO - 24




FAIRBANKS (AK) – TOK (AK) 

29 julho 2016 



Depois de comemorarmos ontem à noite a chegada do Filipec de Proudhoe Bay, derrubando umas Alaskan Ambar, pregamos no sono embalados pela chuva que até então tinha dado uma trégua. Hoje pela manhã, parti para garantir o café e quando percebi que o Filipe não iria chegar a tempo salvei o café e uns donuts para o parceiro que ficou no quarto editando filmes para a galera que o acompanha. 

Por volta das 10 horas a chuva deu uma folga para, pelo menos, arrumarmos a bagagem nas motos. Foi só abastecermos e pegar a estrada que a danada da chuva veio se integrar ao nosso comboio. Era uma chuvinha chata, daquelas que não lavam a estrada, sujam a viseira e, no meu caso, o windshield da Helô. 

As estradas aqui, com sua variação de pisos incrível, passando de uma espécie de rípio asfaltado, ao concreto e, na maior parte, por um asfalto liso muito traiçoeiro quando molhado. Como o pneu dianteiro da Juanita já foi para o brejo não tínhamos alternativa senão tocar com cuidado até Whitehorse para troca-lo. 

Seguíamos debaixo de chuva mantendo uma velocidade de cruzeiro razoável, por volta de 70 milhas, evitando movimentos bruscos, antecipando manobras e colocando uma distancia maior entre as motos. 

Foi com essa tocada, precavida porém constante, que chegamos a Delta Junction, a “Última Milha” da Alaska Highway, onde iniciaremos seu percurso em sentido contrário até a “Milha Zero”. Aproveitamos para fazer ums fotos históricas, desidratar os joelhos e comer os sanduiches comprados ontem no Fred Mayer. 

Quando o Felipe vestiu a roupa de chuva, imunda do barro de ontem, todos os olhares convergiram para aquela estranha estátua de barro que se movia. Até o capacete do cara está imundo. Com isso até a chuva parou. Na estrada eram retas após retas, um convite ao sono se não fossem os consertos de rípio para nos manter acordados. 

Chegamos a Tok, depos de uns 340 Km rodados, ainda cedo e o Felipe comentou que nunca tínhamos chegado tão cedo a uma cidade. Fomos direto para o armazém onde fica a recepção do motel em que ficamos na vinda. Ao entrarmos, uma senhora meio hippie, com uma camisa da HD da Florida, muito alegre, brincou e nos cumprimentou de forma bem humorada e espontânea. Uma simpatia. 

Já no quarto, enquanto planejávamos o dia seguinte, lembramo-nos que o pneu dianteiro da Juanita esta rodando por pura teimosia. O danado “carecou” geral aumentando os riscos da pilotagem, especialmente na chuva (coisa que não tem faltado nessa região). A concessionária Yamaha onde podemos encontrar o pneu só em Whitehorse, a 640 Km de distancia. Para nos sacanear ainda mais, amanhã é sábado e a loja só fica aberta até às 16:00. O Felipec teria de sair amanhã por volta de 4 da matina, acelerar com vontade para tentar chegar a tempo, correndo o risco de ter um furo no pneu no meio do caminho e piorar ainda mais a situação. 

Mas como sempre digo: “Você nunca está sozinho na estrada, seja ela de terra ou de asfalto, seja ela real ou imaginária, seja ela a própria vida”. Desde que façamos nossa parte, os “anjos” surgem para quem tem olhos para enxergar, paz no coração e humildade para aceitar. 

Bem, depois dessa filosofia barata vamos aos fatos. Estávamos tão dependurados no pincel (claro, pincel) sem a escada que resolvemos apelar. Inicialmente procurando alguma loja de peças de veículos. Quem sabe não indicam onde comprar o tal pneu mais perto, pensamos. E assim fomos a uma loja da NAPA. Ao entrarmos, o que parecia uma loja abandonada mostrou-nos ferramentas de todos os tipos, armários e estantes para oficinas, tudo brilhando e numa variedade difícil de encontrarmos até mesmo nas nossas grandes cidades. A gerente, uma senhora baixinha parecida com eskimó (cismei que todo mundo descende deles, e velho cretino quando cisma é fogo) falou-nos para procurar o Brian num comércio com uma placa laranja na frente. Chegou a fazer o mapa mas era bem ao lado do nosso hotel. 

Quando chegamos à loja do Brian o mesmo quadro, uma loja com aspecto decadente pelo lado de fora e por dentro com um enorme sortimento de equipamentos agrícolas. O Brian, um perfeito “red-neck” (algo como nossos caipiras do interior) e uma figura saída de algum livro de bang-bang. Eu não entendia nada do que ele falava, só ospalavrões, nunca vi uma pessoa tão bôca suja. Como fosse pouco, mais desconfiado do que uma cascavel prenha. Com muito custo o Filipec conseguiu explicar que precisava de um pneu 90 x 90 x 21 para uma HD. Como ele não acreditava na medida abrimos a porta e chamamos para que ele visse o pneu. O cara deu um pulo para trás, escondendo-se e pela abertura da porta olhava para um lado e para outro até se certificar de que não havia ninguém e sair. Quando ele viu o pneu assustou-nos com uma gargalhada sem pé nem cabeça e, voltando a ficar enfezado, falou-nos que sabia quem tinha o pneu. Teríamos que ir em uma loja de motocicleta no camping da Venessa. 

Entramos, ele pegou dois pedaços de papel, colocou-os lado a lado e começo a desenhar um mapa. Começava em um lado, ia para o outro e tornava a voltar para o primeiro. Tive a nítida impressão que ele entregaria uma metade para cada um de nós mas não, entregou as duas para o Filipe que nem se atreveu a mudar a posição dos papéis. Meio sem acreditar seguimos o mapa e numa rua deserta eis que surge um Camping e na tabuleta diz que também vende peças de moto ! 

Entramos e demos de cara com a senhora que nos saudou na chegada ao Hotel. Era a Vanessa, dona do Camping cujo filho é mecânico de motos. Ela brincou conosco dizendo que estávamos no lugar certo e que achava que tinha o pneu. Levando-nos a um pequeno barracão de madeira, cuja maçaneta da porta é um enorme chifre de Moose, ela mostrou-nos uma série de pneus usados mas em bom estado que são deixados lá por motociclistas e ela guarda para tirar outros motociclistas do sufoco, como era o caso do Filipec, e de graça. Procuramos na prateleira e lá estava ele esperando pela Juanita. Agradecemos muito, e voltamos ao Brian para trocar o pneu. O cara tem uma oficina nos fundos da loja que muita autorizada não tem. Em meio a impropérios e palavrões ele trocou o pneu e deu a risada final: cobrou 125 dólares pela troca. Um roubo mas como não combinamos antes o negócio era pagar ou Police (se bem que acho que essa alternativa não era muito do agrado do Brian, ele parecia estar devendo). 

Como vocês podem ver, em uma cidade minúscula, com uma população muito pequena, apareceram três anjos para nos tirar do sufoco. Bem verdade que um deles era meio boca-suja e gostava de dinheiro mas vocês queriam o que, é um país capitalista e além disso Anjo é Anjo, não dá para ficar escolhendo não... 















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